Arquivo da tag: suicídio

Suicídio na Bolsa vale mais?

O Observatório da Imprensa publicou artigo que aponta censura da Rede Globo contra a tentativa de suicídio de um operador da Bolsa de Valores. Segundo Urariano Mota, que assina o texto, a tentativa de suicídio do operador merceria destaque e a notícia não teria sido veiculada por medo da empresa jornalística. Ele argumenta que a Globo não quis desagradar os bancos que são seus anunciantes.

Longe dessa polêmica, eu fiquei pensando e novamente defendo: se vamos noticiar suicídios, vamos falar de todos. Sei de todos aqueles critérios de seleção das notícias, mas acho que suicídio na Bolsa de Valores de São Paulo não vale mais do que outros. Antes de noticiarmos esse, ou logo após, teríamos que ter repórteres plantonistas nas linhas da CPTM, Metrô e nos prédios dos Jardins. Nesses locais, todos os dias, alguém se atira para encerrrar um sofrimento.

Até que alguém me ofereça uma fórmula ética que desembarace esse nó, acredito ser melhor manter essas notícias factuais fora da pauta, embora aspectos amplos e reportagens sobre as razões dos suicídios sejam sempre válidas, embora solenemente esquecidas.

E só um registro; além do Terra, quem noticiou o suicídio e aparece bem posicionado na pesquisa do Google sobre o tema foi o Diário do Pará, o mesmo jornal que é alvo de ação na Justiça por sua exploração de imagens e fatos policiais que atentam contra a dgnidade da “pessoa humana”.

Em tempo, desde 17 de novembro, o operador permanece em estado grave na UTI de um hospital de São Paulo.

Anúncios

Bolsa, bombeiros e mulheres suicidas

Em um mesmo instante da tarde de quinta-feira, 2 de setembro, operadores da bolsa de valores e uma equipe do Corpo de Bombeiros precisaram mostrar sangue frio. No pregão, os índices caíam significativamente. Na Rua Oscar Freire, uma pessoa se ameaçava jogar de uma janela do 10º andar. O suicídio e as perdas de investimento foram apenas coincidências. É o que imagino e o que mostram as pesquisas.

Na verdade, não sei o resultado de nenhuma das duas histórias. Ninguém sabe até onde vai a crise da economia americana. E eu não fiquei esperando para saber se o suicida (ou a) consumou o ato. O fato, é que o desespero pode sim estar relacionado ao dinheiro, mas a loucura, o amor e outras “doenças da alma” são motivos mais comuns para aqueles que escolher apagar a luz. Segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS), 3 mil pessoas por dia cometem suicídio. Isso significa que a cada 30 segundos uma pessoa se mata em algum lugar do globo.

Uma pesquisa do Instituto de Psiquiatria (IPq) do Hospital das Clínicas (HC) da Faculdade de Medicina (FM) da USP divulgada recentemente aponta que cerca de 3% dos paulistantos já tentou o suicídio. O médico psiquiatra Bruno Mendonça Coêlho, autor do estudo, constatou que a depressão, e principalmente a distimia, associada ao abuso ou dependência do álcool, aumenta a ocorrência de idéias, planos e tentativas de suicídio. Entretanto, 90% dos suicídios estão relacionados a doenças psiquiátricas.

O médico informa que no Brasil a taxa de suicídio é de 4,5 para cada 100 mil habitantes, anualmente. A tendência é de crescimento e apresenta evolução de 21% nos últimos 20 anos, entre 1980 e 2000. Um ponto bastante triste, entre tantos outros, é constatação do estudo de que as mulheres tentam o suicídio quase três vezes que os homens.

Enquanto isso, como já disso outras vezes, a imprensa continua a noticiar alguns desses casos. Mas não li em nenhum lugar as considerações do professor. Quanto mais a sociedade souber sobre isso, mais vai poder – com clínicas e tratamento – ajudar quem leva essas idéias no coração. Principalmente aquelas que se travam diante do absurdo do ato, descem da janela com ajuda dos bombeiros e seguem vivos se matando um pouco a cada dia.

(* Com informações da Agência USP)

Continuamos a noticiar suicídios – 2

Minha opinião a respeito das notícias sobre suicídio não ficou clara para os leitores no post anterior. Voltemos ao assunto.

Manuais de redação, aulas na faculade e as exigências éticas do exercício do jornalismo riscam das pautas as notícias sobre suicídio. Assim deve ser, sem questionamentos. Entretanto, coloquei no rápido post anterior a necessidade de refletir sobre o assunto. Noticiamos a morte na contramão na Castello: quase todos os veículos usaram e abusaram das imagens divulgadas pela concessionária da rodovia. Em outro caso, houve quem fizesse diagramação especial em site e jornal com as imagens do momento em que um suspeito de assalto dá um tiro na própria barriga (especialmente o Estadão e JT capricharam). Nesta semana, equipes de TV não mediram palavras e afirmaram que um usuário pulou na frente do trem na Estação Bresser, sem lembrar ainda da menina que pulou do shopping e foi matéria em vários jornais.

Ouvir os bombeiros, assessoria do Metrô e publicar uma nota é coisa simples. O esforço de reportagem ao qual me referi (e durante todo o texto tentei ser irônico) precisa ir na direção contrária a do fato puro. Se há – como parece – um momento de maior fragilidade no ambiente social que leva ao suicídio, precisamos retratá-lo. Há grupos de apoio para pessoas que um dia já atentaram contra a própria vida e se salvaram? Seria mais interessante uma matéria sobre pessoas que chegaram a pensar no absurdo e depois desistiram? Como anda o trabalho do Centro de Valorização da Vida? Aumentou a demanda por lá?

Enfim, quando um ato individual pára uma cidade, devemos achar meios de reportar. É impossível, principalmente para sites, rádios e TVs, não falar que a linha mais importante do Metrô de SP ficou parado às 18h, mas é preciso habilidade para simplesmente não afirmar que o problema foi causado por uma pessoa que se jogou nos trilhos. Vale pensar o tema. A Época fez uma bela matéria sobre o tema suicídio e postei aqui. O caminho é aquele, mas a mídia ainda poderia aproveitar as repetidas situações para refletir sobre o tema, não apenas noticiar. Repito a consideração final do primeiro post: venhamos e convenhamos, alguns fatos não merecem registros.