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Conversa na Catedral, Mario Vargas Llosa

Terminei faz uns minutos o livro que muitos consideram a melhor obra de Mario Vargas Llosa. Vou me conter com uma imagem da capa e a promessa de refletir um pouco mais antes de escrever. Acho que vou reler umas páginas. Aos mais apressados, reitero a opinião geral: recomendadíssimo, sobretudo se você gosta dos romances onde nem toda a narrativa se estrutura em forma linear e os diálogos de diferentes núcleos da trama se apresentam em paralelo. Além disso, tem uma história instigante, onde ficamos sempre a querer saber qual é o próximo passo, qual o destino dos personagens e o fim de seus dilemas.

Mario Vargas Llosa – A cidade e os cachorros

Mario Vargas Llosa, Batismo de Fogo: indispensável

Não é a foto do livro errado: "A cidade e os cachorros" já foi editado aqui entre nós com o título "Batismo de Fogo". Qual você prefere?

“La ciudad y los perros” é o título original desse que é o primeiro romance de Vargas Llosa.  Com a tradução direta para “A cidade e os cachorros” essa obra recebeu a edição mais recente no Brasil, aos cuidados da Alfaguara. Li a versão um pouco mais antiga, da Record/Altaya, parte da série Mestres da Literatura Contemporânea, cujo título é Batismo de Fogo. Mas, afinal, o título pode influenciar uma leitura?

Ao menos neste caso, sim. Minha disposição em relação à obra foi embalada por uma certa expectativa da passagem, do ingresso em algo novo. Afinal, do batismo resulta algum senso de pertencimento. E assim, talvez inconscientemente, tenha lido todo o livro: em busca dessa luz no fim do túnel, desse entrada em um mundo novo.

Sim, é verdade que esse rito é o fio condutor desse que é o primeiro romance do escritor peruano. Escrito em 1962, trata da vida de adolescentes internos em um colégio militar. O batismo está nos violentos trotes que marcam a entrada na escola e, sobretudo, nos dramas que fazem esses internos se transformarem em homens após três anos de estudo. O batismo não seria apenas o ritual de admissão, mas todo o colégio interno seria uma espécie de batismo de fogo para a vida adulta.

Simplificadora a análise. É preciso ir além. Por isso mesmo, talvez se eu tivesse lido o romance guiado pelo título original eu valorizasse ainda mais, desde o começo, as oposições feitas pelo autor ao longo das 373 páginas. Os alunos novatos, chamados de cachorros, e a cidade são realmente os protagonistas. Os dilemas da sociedade peruana dos anos 1950 estão todos presentes: há os claros contornos da pobreza desenhando destinos, há as influências da moral sexual em movimento, o rigor da ordem frouxa vivida pelos militares e tanto mais.

Quem dedicar seu tempo à Batismo de Fogo vai encontrar vários traços de Llosa que serão retrabalhados em outras obras: os “narradores múltiplos”, a diversidade de assuntos em busca de uma analogia com a vida, abordagem literária chamada de “romance total” . Além disso, há espécies de sub-capítulos dentro da obra que estão ancorados em tempos diferentes. No papel de crítico literário, o próprio autor definiu esse recurso narrativo como “vasos comunicantes”.

A técnica consiste em narrar criando uma unidade com episódios que ocorrem em tempos  ou  espaços  diferentes, mas que  têm  algum  tipo  de denominador  comum  que  não  torna  inconveniente  ou incompatível essa fusão (VARGAS LLOSA, 2003:74).

Ao pesquisar sobre Llosa e Batismo me deparei com o fato de que, apesar de ser sucesso de público e crítica, ele não encontrou o mesmo ‘afeto’ entre seus hermanos.  Ao lado de Gabriel Garcia Márquez, é representante do boom latino-americano, período de fascínio exercido por esses autores nos fins de 1960. Mas, os ares de best-seller não fizeram bem para sua convivência com os “amigos”. E isso não tem nada a ver com o soco que ele deu em Garcia Márquez. Essa é outra história.

Sobre ele, o grande autor argentino Juan José Saer afirmou: “suas formas literárias me parecem caducas”. Outro argentino, Ricardo Piglia, o chama de “escritor convencional”. Ao contrário do que pensam alguns, chileno Roberto Bolaño o admirava e até chegou a escrever o prefácio de uma reedição dele, mas via tanto no peruano quanto em outros medalhões do boom a perpetuação de um modelo arcaico. Há quem diga que a inimizade dos latinos contemporâneos, formados por duros anos de ditadura, advém do posicionamento político de Llosa, direitista assumido e um dos precursores do neoliberalismo no continente. Afirmar isso, porém, é reducionismo. O próprio Saer se justifica, acrescentando que admira outros autores “de direita”, como Céline e Borges. A bronca, portanto, seria somente em relação à prosa de Llosa. (veja a resenha completa do jornal “rascunho” aqui)

Vale ler todo o artigo do Jornal Rascunho. Para mim, ao menos por enquanto, Llosa tem mais que isso e é um excelente contador de histórias. Como diz a resenha, “combina as duas escolas: a amplitude social da época áurea do romance com a ousadia lingüística dos modernos.”

Opinião de Saer
Recomendo também a leitura da entrevista do escritor argentino Juan José Saer (1937-2005). À USP em 1997, falou pouco sob o autor que é tema desse post, mas apresentou vários aspectos da sua compreensão da literatura. Sobre Llosa e Batismo de Fogo, resumiu: “Quanto a Vargas Llosa, fui um dos primeiros a dizer que Batismo de fogo era um romance escrito para mostrar que há militares maus e militares bons.”

E ele completa : “Creio que a filosofia dos autores do boom foi o mercado, que eles perceberam que nos Estados Unidos se começava a ver esse tipo de coisa que ia ser, na minha opinião, a destruição da literatura latino-americana.” (Veja entrevista completa aqui). Nada melhor que ler para construir sua própria opinião.

Livro: Batismo de Fogo, Mario Vargas Llosa
Record/Altaya, 1995.
Classificação Papel Eletrônico: 4 estrelas (0 a 5)

Pantaleón e as Visitadoras não é um ‘livro safado’

Comprado no sebo por 15 reais, minha versão de Pantaleón e as Visitadoras (Mario Vargas Llosa) traz na contracapa o comentário de um repórter da Ilustrada. O texto-comentário-apresentação está lá porque a edição é parte da Biblioteca Folha. O repórter define o romance como um ‘livro safado’, no sentido de ser engenhoso e de ter ‘pernas tortas’, como um Garrincha dos Livros. Hum…

O livro é sensacional, pagaria 150 reais pela leitura. Mas, o enredo é sofisticado demais para ser resumido como um livro safado, mesmo que o texto de apresentação tenha tentado ser espirituoso. A obra de Vargas Llosa é densa, faz refletir o papel do sexo na sociedade ao mesmo tempo em que reflete sobre manifestações religiosas populares. O contraste entre religião e sexo permeia todo o livro, mesmo na fé que o capitão responsável por organizar um serviço de prostituição devota ao exército.

Pantaleón e as Visitadoras é um livro divino, porque fé, sexo e boa literatura são coisas que fazem parte da minha concepção de Deus. O engraçado é que nem o texto do repórter nem mesmo a sinopse notaram a importância da “Igreja da Arca” e suas crucificações na trama…

Sinopse
da Folha de S.Paulo

O jovem capitão Pantaleón Pantoja foi treinado para ser um dos mais eficientes oficiais do Exército peruano. Disciplinado, respeitador das hierarquias, estava preparado para enfrentar qualquer tipo de missão militar.

Mas a tarefa que lhe foi designada superava todas as expectativas de um sério oficial de carreira: organizar um bordel na selva amazônica e amenizar a fome sexual da soldadesca que, no isolamento da mata, passara a violentar as mulheres locais, pondo em risco a reputação das Forças Armadas nacionais.

Embora tivesse sempre aspirado a ser um herói de guerra, e não um cafetão das florestas, Pantoja aplica meticulosamente seus conhecimentos de estratégia e de logística na implantação do “serviço de visitadoras” – codinome para o lupanar equatorial. O problema é que nem a disciplina mais férrea foi capaz de evitar um envolvimento amoroso do capitão, perfeito pai de família, com a menina mais bela do “regimento”.

Neste romance, Mario Vargas Llosa exibe mais uma vez a sua fantástica capacidade de contar histórias que têm ao mesmo tempo um pé bem plantado na realidade, e o outro, no delírio.

No caso, o leitor pode se recordar das recentes investidas bélicas de um Peru em guerra contra o Equador, aqui solapadas por uma comédia erótica que desmonta qualquer pretensão de heroísmo.

O erotismo em Mario Vargas Llosa

Eu me perdi nas contas… Antes de retomar minha fase Marcos Rey andei às voltas com Mario Vargas Llosa. Ganhei de presente da minha mulher dois livros do autor peruano, que de fato devem ser lidos em sequencia: Elogio da Madrasta e Cadernos de Dom Rigoberto.

Posso dizer que gosto de literatura erótica, embora tenha tido contato com poucos livros. E de fato, creio haver poucos recomendáveis. Lembro que ainda na faculdade fizemos um bom trabalho comparando a Casa dos Budas Ditosos com outras formas de expressão mais ‘sensualizada’, contos pornográficos que acompanhavam revistas masculinas… Enfim, difícil mostrar as fronteiras entre arte e pornografia, mas naquela época tentamos.

Hoje, eu teria ainda mais cautela ao abordar o tema. Difícil rotular, embora saibamos claramente que alguns contos eróticos hospedados em sites XXX ou revistas de sexo explícito não tenham nada de arte, da mesma forma como muito blog não tem nada a ver com informação ou jornalismo…

Mas, a questão é complexa e nem passa pela cabeça quando nos entregamos a leitura dessas duas obras de Vargas Llosa. Com os livros em mãos, nos concentramos na boa prosa, na construção intrigante da história, na elaboração dos personagens…

O pai Dom Rigoberto, o filho Fonchito e a madrasta Lucrécia, além da empregada doméstica da família, formam o grupo com o qual o leitor se acostuma a partilhar desejos e impressões sobre a vida íntima, sexual.

É garantia de boa leitura e reflexão sobre os limites do desejo. Recomendadíssimo!