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“Resta Um” – Isabela Noronha

13812_ggIsabela Noronha são várias. A que entrega aos leitores o romance “Resta Um”, pela Companhia das Letras, é uma escritora que aceitou o desafio de contar uma histórias de ausências. Em sua estreia como romancista, conseguiu me fazer mergulhar por quatro dias na leitura rumo a um desfecho inesquecível.

Isabela coloca São Paulo como palco da busca de uma mãe por sua filha desaparecida. E lança a tarefa de, quase sem mapas, nos encontrarmos na trama desenvolvida através das vozes de narradores e tempos distintos. Assim como a cidade, o livro não se entrega sem exigir parceria.

Pode soar pretensioso e muito arriscado fazer comparações. Vou fugir delas. Mas preciso contar que a prosa e seu ritmo fizeram lembrar Bolaño, o autor que figura na minha lista como mais recente descoberta, embora já faça algum tempo que tenha lido quase tudo dele que foi traduzido por aqui.

Mas deixemos cada um com suas próprias penas. Aqui basta compartilhar que me senti envolto pela mesma “vontade de descobrir” que o chileno me despertou em leituras passadas. Quis preencher as ausências nas trajetórias dessas vidas imaginadas (porém tão reais e verossímeis) e absorvido pelas pistas que vão além do e-mail de pessoa que diz saber o paradeiro da filha sumida.

Fui tomado pela tarefa de resolver o quebra-cabeça. Nessas voltas do tempo narrativo, fiquei com a quase certeza de que o livro é também sobre outros personagens desaparecidos, não apenas a filha de uma professora de matemática da USP.  Pois para sumir e virar ausência, não é preciso entrar para qualquer lista. Inclusive porque as oficiais de pouco valem, nos diria a repórter Isabela Noronha.

Outra Isabela, de certa forma, descobriu esse drama dos filhos que se perdem durante uma reportagem, nos idos do 2000 para o Estadão. E há de fato dramas reais que cobram um preço de repórteres mais atentos, que viram fantasmas e que, neste caso, acabaram “exorcizados” em um romance digno do prêmio recebido pela agência literária Curtis Brown pelo projeto do livro.

(Aliás, vale fazer um parêntese nesta equação que é uma trajetória com muitas variáveis: Isabela já tinha conquistado o prêmio Barco a Vapor  2013 com o livro Adeus é para super-heróis (inscrito como O garoto que engolia palavras), seu primeiro livro de ficção publicado).

De fato, fui conquistado na leitura de “Resta Um”. Tanto que retomei uma publicação neste blog após longos anos de ausências. Afinal, para que serve mesmo a literatura se não for para nos ajudar nos reencontros, sobretudo com a gente mesmo? Que venha o próximo, Isabela.

SAIBA MAIS
Página do livro na Companhia das Letras

Um Jogador – Dostoiévski

Bom motivo para ler “Um Jogador”, de Dostoiévski: uma cena muito curiosa na qual o escritor promove uma reviravolta na vida dos personagens que estão reunidos em um hotel na Alemanha.

Óbvio, não vou adiantar mais nada, pode perder a graça se você resolver ler a obra. Mas, adianto que “Um Jogador” não é  um livro para rir. Se fiquei com essa cena na cabeça e realmente dei risadas, o mesmo não aconteceu nas outras 215 páginas.

Vamos a uma sinopse: um jovem russo conta as memórias de um período de aproximadamente dois anos de sua vida. O jogo e o amor definem os lances da sua existência neste período, mostrando ainda como o cenário das relações sociais podem ser tecidos em torno do dinheiro. Traços do romance de costumes… Como sempre, há bem mais que roletas e sonhos.

Outro ponto a ser considerado para entender: o livro foi escrito por Dostoiévski entre 4 e 29 de outubro de 1866 para cumprir uma exigência de contrato com seu editor. Na época, estava dedicado a “Crime e Castigo”, mas tinha que entregar algo novo para ser publicado ou perderia direitos sobre suas obras por 9 anos. Para dar conta da tarefa, chegou a ditar o livro para uma taquígrafa, que depois veio a ser sua segunda esposa.

De alguma forma o tempo de maturação do romance pode ter influenciado nos pontos da narrativa que, a mim, incomodaram. (Ou eu deveria ver maior genialidade em uma obra produzida nessas condições, ditada ao ritmo dos relógios?). Apesar das considerações, não usaria jamais classificar “Um Jogador” como obra menor.

Na verdade, talvez eu precise de mais tempo para entender o protagonista, Aleksiéi Ivânovitch. Vi nele uma fragilidade psicológica um tanto absurda, um extremo da derrota confiante e determinada.  Também fiquei a refletir a construção de Polina, objeto do amor do nosso ‘jogador’. Dura, frágil, doentia… Talvez esse seja um dos encantos do relato, as frestas e os traços incompletos em alguns dos habitantes da estória.

Suspeito ainda que o romance teria um acabamento mais fino em alguns pontos. Em algumas páginas, quando o tom de diário marcou o relato, fiquei com a impressão de que ele ganhava tempo para afinar um desfecho ou engordar o livro. Posso estar sendo injusto. Preciso reler outros livros dele para traçar paralelos.

(Aliás, comprei a tradução direta do russo de “Crime e Castigo”. Está na fila para releitura. Quero de presente os dois volumes da mesma editora de “Irmãos Karamazóv”, também para reler. Minha memória anda fraca, preciso reavivar a lembrança dos essenciais de Dostoiévski.)

E para quem ficou interessado em “Um Jogador”, recomendo e quero saber também outras opiniões. Na edição da editora 34, há um bom posfácio (leia aqui) do tradutor, Boris Schnaiderman, e boas ilustrações em xilogravura de Axl Leskoschek.

As putas e a tristeza em um conto de Garcia Márquez

Memória de minhas putas tristes é um conto que quase virou romance. Coisa para três horas de leitura concentrada e refresco literário para a mente.

Sinto-me sempre incapaz de fazer comparações definitivas, mas pouco nesse no livrinho está no mesmo nível da grande obra do autor, ” Cem anos de Solidão”.

Memórias conta a história de um velho jornalista que escolhe comemorar seus 90 anos trepando com uma virgem.  A história se desenrola nos caminhos, inclusive em direção ao próprio passado, que a vida desse homem percorre enquanto ele busca de realizar esse desejo.

Tudo considerado, a boa prosa está presente e a história é envolvente. Só aconselho reduzir as expectativas e seguir adiante. Certamente um conto bem melhor do que centenas de opções alardeadas nas vitrines das livrarias e nas listas dos mais vendidos.

PS: Confesso que fiquei sentindo saudade de Bolaño, mas Memórias foi uma boa leitura de transição. Agora, sigo na leitura do meu primeiro romance de Lobo Antunes.

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Recomendo, é isso que me cabe por enquanto dizer.

Como resenhar um livro de 851 páginas, cinco partes e dezenas de personagens? Posso dizer apenas que gostei, é um livro com jeito de inacabado. É literatura em estado bruto. Voltarei a este post mais tarde para complementar com novas observações.

Para ler mais:
Bolaño, um mito em construção (El País)
O homem que escreveu 2666 (Bibliotecário de Babel)

Os espelhos de Anna Kariênina

Se uma obra deve refletir o autor,  Liev Tolstói cumpriu essa tarefa em cada uma das 800 páginas de Anna Kariênina. Sobretudo nesta tradução de Rubens Figueiredo, diretamente do russo ao português lançada recentemente pela Cosac Naify.

Tolstói está presente não apenas em lances autobiográficos ou na defesa de teses que lhe eram caras. Estilo, forma e o apuro nas técnicas narrativas não deixam dúvidas de que Anna Kariêninna está entre o que há de melhor na produção do autor.

Não há o menor sentido em eu tentar um resumo, análise ou comentário mais sério sobre o livro. Para isso, deixo sobretudo a dica dos  links abaixo. Posso apenas dar meu testemunho: vale a pena ler e não se deixar assustar pelo volume. Serão recompensados aqueles que gostam das boas descrições de situações e ambientes e de bons retratos psicológicos de personagens.

Minha estratégia para não desanimar e não me perder entre as dezenas de personagens foi me dedicar ao máximo ao livro para não perder o fôlego. Cumpri a leitura em uma semana. Espero agora “Guerra e Paz” em 2011, quando for lançada a nova tradução pela Cosac Naify. Também acho que vale uma boa biografia do autor, mas para isso preciso de indicação que ainda não tenho.

Para ler mais:
– Revista USP: Considerações à margem de Anna Kariênina – (link para arquivo PDF)
– Blog Cosac:  Rubens Figueiredo comenta sua tradução de Anna Kariênina (link site)

Em contos, Liev Tolstói entrega um convite

Admito, o título prendeu minha atenção: “O diabo e outras histórias”. Aliás, ela está sempre pronta para ser roubada pelos temas relativos ao inferno e às manifestações diabólicas (calma, nada demais, é só um tema de pesquisa literária).

E só tenho a agradecer a curiosidade e ao convite que recebi nessas histórias curtas. Eu que já gostava de outros russos vi se desnudar diante de mim um autor de muitas obras (isso é ótimo quando nos apaixonamos por um escritor) e de um texto muito cuidadoso, sem arabescos, mas graciosamente elaborado.

Neste livro, editado pela Cosac Naify, Tolstói (1828-1910) apresenta cinco histórias que mostram com exatidão sua capacidade criativa e o que esperar dele em outras livros de maior fôlego, como Guerra e Paz ou Anna Kariênina.

Os contos Três Mortes, Kholstomér, O diabo, Falso cupom e Depois do baile são muito bem apresentados e contextualizados na introdução de Paulo Bezerra, na abertura do livro. Vale lê-la antes de avaliar cada peça do contista, pois assim conseguimos entender melhor como colocar em perspectiva a obra dentro da vida e do pensamento do escritor, conhecido por seus romances volumosos, sobretudo Guerra e Paz.

Tradução de Anna
Gostei tanto de Tolstói que na sequência dos contos comecei a ler Anna Kariênina.  Li as primeiras 15 páginas em uma edição da Círculo do Livro, com tradução de João Gaspar Simões, que estava disponível na minha biblioteca. Mas, senti imediata diferença do texto entre o que vi nos contos e o que me apresentava o romance. Rapidamente, busquei a recente versão de Anna Kariênina editada pela Cosac Naify (R$ 100,00), com tradução direta do idioma original por Rubens Figueiredo.

No mesmo dia, reli as 15 páginas e senti estar de volta ao Tolstói que conheci nos contos. Difícil explicar, mas vi claramente o uso de palavras menos rebuscadas e uma ordem no pensamento que me pareceu mais direta. Somado ao bom acabamento e papel superior, posso dizer que estou me divertindo com o livro e não me assustam as mais de 800 páginas.

Talvez eu tenha sido influenciado pela boa reportagem da Piauí que cita os três principais tradutores de obras russas diretamente ao português. Vale ler o texto da revista,  assim como ler os contos de “O Diabo e outras histórias”, como boa introdução ao estilo de Tolstói.

Da minha parte, quando acabar Kariênina vou ficar esperando o lançamento de Guerra e paz, também pela Cosac com tradução de Figueiredo, prometida para 2011.

Boas leituras!

Manuelzão e Miguilim – Corpo de baile

Após algumas semanas, voltei aos livros pendentes na estante.  E nem precisava abrir um novo post no blog… Alguém ainda precisa elogiar Guimarães Rosa? Alguém ainda precisa de incentivo para ler Guimarães Rosa? Pois foram duas de suas novelas que me deixaram encantados com a capacidade do escritor de colocar a grandeza da vida nas páginas.

As duas novelas (que li na edição cuja capa apresento ao lado) são parte do livro publicado originalmente em 1956 com o título Corpo de baile. Originalmente, tinha sete novelas, que depois foram editadas pelo autor divididas em três livros.

Manuelzão e Miguilim apresenta as novelas Campo Geral e Uma estória de amor. Miguilim, personagem que se transforma em um dos símbolos da produção literária de Guimarães, é retratado em Campo Geral.  É a história da infância, do amor pela família e da abertura dos olhos para o mundo. Na verdade, é muito mais que isso. Talvez eu já tenha dito coisa semelhante para outros autores e desfechos, mas as cenas finais da história desse garoto são a coisa mais bonita que já li até o momento na literatura. Poesia concentrada, absoluta, inquestionável.

Diante da força de Miguilim, Manuelzão, personagem da segunda novela, perde força. Talvez tenha sido essa a intenção: contraponto. De concreto, posso garantir que serão poucos os leitores capazes de chegar ao fim da história de Miguilim e questionar se o escritor era ou não genial.  Seja lá quanto custar, o livro vale o dobro. Recomendo.

PS: E por falar nisso, tem uma edição 2010 de Corpo de Baile, pela Ediouro, que parece compensar pelo preço, valor e acabamento. Resta só saber quais novelas foram contempladas nessa atual versão da obra, apresentada como “volume 1” (Veja no site Fnac –  e não ganhei nada pela dica da loja, absurdo!).