Padre Sérgio – Liev Tolstói

A novela Padre Sérgio, de Liev Tolstói, é daqueles escritos do autor russo em que sobram “tolstoísmos”. O empenho na defesa de um certo tipo de cristianismo não ofusca, mas não engrandece a prosa do gênio literário.

O livro é leitura recomendada para quem se apaixonou pela forma desse russo fazer literatura e também pelos detalhes da sua caminhada intelectual-religiosa. É um texto curto, menos de 100 páginas.

O valor do livro é caro na edição da Cosac: R$ 56, com capa dura. Vale pelos apêndices e sempre precioso tratamento do conteúdo. De certa forma, tem valor e apresentação à altura dos fãs de Tolstói.  Para quem ainda está começando uma possível caminhada de descoberta do autor, recomendo começar pelo volume de contos que eu já comentei aqui (O Diabo e outras histórias) e seguir rumo a Anna Kariênina, Ressurreição e finalmente Guerra e Paz, que a Cosac lança no segundo semestre.

Sinopse:
Publicado em 1898, este volume está entre as obras-primas do grande escritor e pensador russo Liev Tolstói (1828-1910) e traz as marcas de suas preocupações morais e religiosas, que resultaram numa versão muito pessoal do cristianismo e lhe renderam a excomunhão da Igreja Ortodoxa em 1901. O protagonista do livro, um príncipe e militar admirado por seu sucesso e beleza física, rompe noivado e ingressa num monastério, tornando-se candidato a santo. Também na fé experimenta uma forte crise, reflexo dos acontecimentos na Europa em meados do século XIX.

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O passado – Alan Pauls

Indicação de uma colega de trabalho, o ecritor argentino Alan Pauls me conquistou por sua capacidade de fazer doer. Nem todos, mas muitos que leram o passado na íntegra poderão me entender: o amor às vezes dói. Bastante.

Palavras do autor: “em ‘O Passado’, os personagens passam por um calvário e se transformam, no final do amor, em fantasmas”.

Em 2007, a obra ganhou adaptação para o cinema sob direção do  brasileiro Hector Babenco.

Primeira vez?
Algumas pistas para saber mais sobre Alan Pauls:

G1Para Alan Pauls, amor é forma de doença
Veja – Resenha do livro “O passado” sob o título O amor zumbi
Estadão Ser escritor é transformar mentira em arte, diz Pauls
FilmePágina oficial

Pergunte ao pó – John Fante

O escritor americano John Fante é conhecido por seus contos e romances, além de roteiros de cinema. Nascido em 1909, começou a escrever aos vinte anos e nem mesmo depois da cegueira causada pela diabetes deixou de contar histórias.

Publicado em 1939, Pergunte ao pó talvez seja a obra mais conhecida do autor. Recentemente, foi adaptado (destaquemos a palavra adaptado) para o cinema (mais infos no IMDb, em inglês).

O livro trata da história de Arturo Bandini, um escritor em começo de carreira, recém-chegado a Los Angeles na década de 1930. Sempre com um toque de urgência, ele vive os dilemas da descoberta da vocação, do amor e da herança religiosa católica.

Esqueça qualquer chance de encontrar um livro chato. O estilo de Fante é leve e direto, perspicaz. Não tema encontrar mais uma simples história de amor. A matéria do livro talvez seja a loucura, a busca de sentido.

Na edição da José Ollympio, com tradução de Roberto Muggiati, a obra tem cerca de 200 páginas. E como elas passam rápido. Ao fim do caminho, fiquei com a certeza de que encontrei ali um belo personagem, um bom reflexo do próprio autor.

Veja abaixo introdução de Charles Bukowski

“Então, um dia, puxei um livro e o abri, e lá estava. Fiquei parado de pé por um momento, lendo. Como um homem que encontrara ouro no lixão da cidade, levei o livro para uma mesa. As linhas rolavam facilmente através da página, havia um fluxo. Cada linha tinha sua própria energia e era seguida por outra como ela. A própria substância de cada linha dava uma forma à página, uma sensação de algo entalhado ali. E aqui, finalmente, estava um homem que não tinha medo da emoção. O humor e a dor entrelaçados a uma soberba simplicidade. O começo daquele livro foi um milagre arrebatador e enorme para mim. Eu tinha um cartão da biblioteca. Tomei o livro emprestado, levei-o ao meu quarto, subi à minha cama e o li, e sabia, muito antes de terminar, que aqui estava um homem que havia desenvolvido uma maneira peculiar de escrever. O livro era Pergunte ao pó e o autor era John Fante. Ele se tornaria uma influência no meu modo de escrever para a vida toda. Terminei Pergunte ao pó e procurei outros livros de Fante na biblioteca. Encontrei dois: Dago Red e Espere a primavera, Bandini. Eram da mesma ordem, escritos das entranhas e do coração. Sim, Fante causou um importante efeito sobre mim. Não muito depois de ler esses livros, comecei a viver com uma mulher. Era uma bêbada pior do que eu e tínhamos discussões violentas, e freqüentemente eu berrava para ela: “Não me chame de filho da puta! Eu sou Bandini, Arturo Bandini!” Fante foi meu deus e eu sabia que os deuses deviam ser deixados em paz, a gente não batia nas suas portas. No entanto, eu gostava de adivinhar onde ele teria morado em Angel’s Flight e achava possível que 5 ainda morasse lá. Quase todo dia eu passava por lá e pensava: é esta a janela pela qual Camilla se arrastou? E é aquela a porta do hotel? É aquele o saguão? Nunca fiquei sabendo. Trinta e nove anos depois, reli Pergunte ao pó. Vale dizer, eu o reli neste ano e ele ainda está de pé, como as outras obras de Fante, mas esta é a minha favorita, porque foi minha primeira descoberta da mágica. Existem outros livros além de Dago Red e Espere a primavera, Bandini. São Full of Life e The Brotherhood of the Grape. E, neste momento, Fante tem um romance em andamento, Sonhos de Bunker Hill. Por meio de outras circunstâncias, finalmente conheci o autor este ano. Existe muito mais na história de John Fante. É uma história de uma terrível sorte e de um terrível destino e de uma rara coragem natural. Algum dia será contada, mas acho que ele não quer que eu a conte aqui. Mas deixem-me dizer que o jeito de suas palavras e o jeito do seu jeito são o mesmo: forte, bom e caloroso. E basta. Agora este livro é seu.”

Charles Bukowski

Novelas exemplares – Cervantes


Repito o que já afirmei: Miguel de Cervantes não precisa da minha defesa. Mas a edição das suas obras anda carente. Tente encontrar hoje nas livrarias uma brochura que tenha todas as 12 histórias de “Novelas Exemplares de Honestíssimo Entretenimento”. O melhor que vai conseguir é obter o livro com a capa acima, com três, e outro da mesma “Arte & Letra Editora” que oferece outras quatro histórias. A tradução é de Nylcéa Pedra, que infelizmente desconheço.

Seria um sonho a Editora 34 produzir uma edição com a qualidade que o escritor merece? Nos sebos, há disponível uma versão da Abril Cultural, de capa dura, que provavelmente é de tradução antiquada. Ficamos torcendo para que alguma editora tenha fôlego para a empreitada.

Sobre as novelas: Entre 1590 e 1612 Miguel de Cervantes escreveu uma série de novelas curtas. Os doze textos foram publicados juntos em 1613 com o título de “Novelas Exemplares de Honestíssimo Entretenimento”. O nome se dá por ser o primeiro exemplo em castelhano de um tipo de novela muito comum na Itália e também ao caráter moral e didático contido nelas. Cervantes diz no prólogo da primeira edição:
A isto se aplicou meu talento, por aqui me leva minha inclinação, e mais me dou a entender, e assim é, que eu sou o primeiro que escreveu novelas em língua castelhana, que as muitas novelas que nela andam impressas, todas são traduzidas de línguas estrangeiras, e estas são minhas próprias, não imitadas nem furtadas; meu talento as criou, e as pariu minha pena, e vão crescendo nos braços da imprensa.

Hora de ir além do atropelamento de ciclistas

Motorista Ricardo Neis, em arte de Danilo Sales

O funcionário público Ricardo Neis vai enfrentar uma série de complicações judiciais por ter atropelado, intencionalmente, dezenas de ciclistas em Porto Alegre. Para os pedaleiros, mais importante que torcer pela condenação dura do agressor é aproveitar o momento para fazer um balanço da defesa do uso das bikes como meio de transporte. Há vários motivos para aproveitar a mobilização e repensar as pendências do movimento.

Abaixo, deixo algumas das minhas impressões colecionadas como jornalista interessado nos temas relacionados à mobilidade urbana e como ciclista ativo:

1) BICICLETADA: Defendo um novo modelo para essa manifestação, mas reconheço a total legitimidade e fundamental importância do formato atual para a união de interessados na causa. Acredito que ela pode sofrer grandes mudanças para ser mais efetiva. Minha opinião é que ela funciona muito bem dentro do grupo de ciclistas, agregando nomes e pessoas, mas parece não ter a mesma força quando a medida é o convencimento de pedestres, motoristas e autoridades para a importância das bicicletas como meio de transporte.

2) AÇÕES JUDICIAIS E POLÍTICAS: É hora de começar a acionarmos judicialmente prefeituras (sobretudo a de São Paulo) por não cumprir leis específicas que determinam a inclusão das bicicletas nas vias.  Precisamos passar a defender projetos de lei até mesmo na Câmara dos Deputados para que bicicleta no trânsito seja de fato muito mais que construir ciclovias. (Aliás, é preciso mobilizar o voto em vereadores e deputados comprometidos; e quem sabe um dia lançar nossos próprios candidatos.)

3) FORTALECIMENTO DE ASSOCIAÇÕES: Sem estruturas jurídicas aptas a fechar parcerias com empresas e administrações públicas não poderemos avançar na realização de eventos e na profissionalização do cicloativismo. A ideia não é ganhar dinheiro, jamais, mas sim ter como estruturar trabalhos com continuidade e qualidade.

4) INFORMAÇÃO DE QUALIDADE: Chegou a hora de termos material de qualidade impresso ou nos sites das associações sobre os principais temas. É preciso haver manuais que indiquem desde como instalar um bicicletário em sua empresa até como cobrar a implementação correta de uma ciclofaixa.

5) EVENTOS CRIATIVOS: A mídia é carente. Novos tipos de eventos e mobilizações sempre despertarão o interesse de jornais, sites e televisões. A “Pedalada Pelada”, embora questionável, sempre despertou interesse para a causa.

Pelo pouco que já consegui acompanhar, sei que todos esses temas acima já são trabalhados em associações como a Ciclocidade. (Espero ainda ajudar, vou ter chance e confesso que não me faltaram convites.) O certo é que o momento é propício e exige amadurecimento de quem quer de fato defender as bicicletas como meio de transporte e qualidade de vida. A comoção do vídeo e a repercussão do atropelamento vai acabar muito breve, mas dezenas de ciclistas continuarão a ser agredidos sem a testemunha de uma câmera nas ruas brasileiras.

Saiba mais sobre o atropelamento:
NYT – Driver Accused of Injuring Brazil Cyclists http://nyti.ms/fC9iwF

Eça de Queiroz – Os Maias

Dostoiésviski – Crime e Castigo