Arquivo da categoria: religião

Católicos mostram fragilidade em ano eleitoral

Após o último eleitor brasileiro apertar a tecla “confirma” em 31 de outubro, um resultado das eleições 2010 já será conhecido. A Igreja Católica sairá como a grande perdedora das eleições. Perde porque seus líderes não souberam mostrar posicionamento firme e coerente diante dos debates que tentaram instrumentalizar pontos polêmicos da religiosidade dos brasileiros.

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A Conspiração Franciscana

Concordo com a blogueira Fernanda Vinhas: quem já curtiu Dan Brown, Raymond Khoury e James Rollins vai gostar do livro que terminei de ler. A Conspiração Franciscana, de John Sack, editado pela Sextante no Brasil, que está surfando a onda dos ‘romance histórico policiais’.

Confesso, não li nenhum dos outros autores citados acima. O livro de Sack me foi dado de presente por uma suposta identificação com a temática. De fato, a história do desaparecimento do corpo de São Francisco de Assis e os conflitos no seio da Ordem por ele fundada me interessaram e dissiparam o pré-conceito para com a obra que poderia ser uma espécie de Código da Vinci Franciscano.

Poderia? Talvez seja. Pensando na versão cinematográfica de Dan Brown, creio que o enredo de Sack serviria também para um filme estilo cinema americano. Mas, tem um problema grave a ser contornado: o final não é tão hollywoodiano . A Fernanda Vinhas definiu sua aparente decepção com o desfecho pelo fato de que o segredo final (ao contrário de O Código), não ter capacidade de alterar a história da humanidade.

Discordo. Não vou contar o fim do livro, apesar da tentação. O fato é que Sack chegou a escrever um livro sobre a história da juventudade de São Francisco e sua versão romanceada do que ocorreu após a morte tem sim potencial, caso fosse verdade, para alterado os rumos do catolicismo.

Mas, sem suposições ou avaliações sobre o tal ‘se’. O livro é nota 3, de 0 a 5, interessante para quem gosta de um certo mistério, ação e não está preocupado com uma construção psicológica extremamente elaborada dos personagens. O ponto positivo é a capacidade de recriar a atmosfera do catolicismo medieval.

Nem visita do Papa a Fátima acalma crise

A Igreja em Portugal está se mobilizando para receber Bento XVI em maio, entre os dias 11 e 14. Os portugueses estão a refletir: como a mensagem de Fátima pode ou não ser oportuna para acalmar a crise atual.

Bento participa das celebrações do 10º aniversário da beatificação de Jacinta e Francisco Marto, Pastorinhos de Fátima. Mas, certamente os olhos da mídia internacional estarão voltados para eventuais discursos a respeito da situação do clero diante dos casos de pedofilia.

Não esperem muito dele. Alguns cardeais poderão falar algo sobre o tema, mas somente em eventos paralelos. Acredito ser pouco provável que as medidas surpreendentes que chegaram a ser comentadas sejam veiculadas em Fátima.

Só milagre
Bento XVI não deve deixar que nada atrapalhe a contemplação do milagre de Fátima e de sua alegada mensagem de paz para o mundo. A divulgação de qualquer medida ou comentário mais direto só poderia ser interpretado como novo milagre, quase outro segredo de Fátima.

Apesar de tudo, os católicos podem se preparar para alguns protestos no caminho do Papa entre Lisboa, Porto e Fátima.

PS: As fotos do post são minhas. Tive o prazer de conhecer o santuário em outubro passado. E no fim, a impressão é que Aparecida não fica nada a dever quando o assunto é mística. Mas, a história de Fátima é bem mais complexa e quero depois abordar o tema em outro post, aproveitando a visita do Papa aos tugas.

A essência do encontro de noivos

IgrejaSagradoCoracao_CamposEliseos_230820091066No último fim de semana, participei de um encontro de noivos no Santuário do Sagrado Coração de Jesus, nos Campos Elíseos, região Central de São Paulo. Uma dezena de casais dedicados se esmerou para, voluntariamente, preparar quase 80 jovens para o matrimônio. Todos muito simpáticos e para os quais, individualmente, só tenho elogios. Mas…

…não posso deixar de fazer uma análise crítica da forma como nossa Igreja Católica desenvolve esta pastoral. O encontro começou às 8h e terminou quase 20h do domingo. Como eu mesmo disse para o padre salesiano responsável pelo santuário: “angu de um dia não engorda cachorro magro”. Por mais interessantes que fossem as atividades, ao menos para mim, todo esse tempo de palestra e atividades receptivas se tornaram cansativas. Bem, os organizadores dizem que antes (como em outras paróquias ainda é) o encontro durava dois dias inteiros.

De forma geral, o conteúdo das palestras está a cargo da experiência de cada um dos casais organizadores. Isso até é bom porque assim assuntos como sexo, contraceptivos e planejamento familiar são tratados sem a influência das teorias limitadoras da hierarquia católica. Mas, como efeito colateral, a ausência de interferência dos padres acaba cobrando um preço: às vezes, o conteúdo carece de um olhar mais teológico ou pastoral.

IgrejaSagradoCoracao_CamposEliseos_230820091069Impossível falar de métodos contraceptivos sem dar a explicação correta sobre como e porque a igreja só aceita a tabelinha como forma de evitar filhos. Também difícil falar de planejamento econômico sem lembrar do dízimo ou da importância de ter em mente que produzimos riquezas para nós e para a comunidade.

Repito, cada um dos palestrantes passou ótimas informações. Mas se esses leigos católicos dedicados poderiam ir ainda mais longe com o apoio direto e dedicado da nossa Igreja. Basta ver que o próprio pároco disse: ele está pensando em produzir uma espécie de novena ou outra forma de formação dos noivos, algo que trouxesse para dentro da realidade do jovem casal uma dimensão espiritual do casamento. Preparação de longo prazo, elementos de prece e reflexão nos tumultuados meses que antecedem a cerimônia. Isso seria bom.

Mas, atenção. Longe de mim cobrar foco exclusivo na vida místico-religiosa do casal, pois o casamento é muito concreto e antes dele cabem muitos conselhos práticos e alguns deles foram dados nas palestras. Mas há que se pensar em como oferecer uma chance de fazer desse sacramento como a grande chance de transformar o amor entre homem e mulher em sinal visível do amor de Deus pela sociedade e pela Igreja. Quais as leituras bíblicas, quais os santos e pensadores que de alguma forma dão pistas para a vida a dois? Não há nenhum? Como aproveitar o curso obrigatório para mostrar aos casais que a vida de fé é essencial ao casamento? Eu começaria valorizando o testemunho de cada um dos casais leigos, gente que teve que se superar e segurar firme na religiosidade para superar brigas e desencontros.

IgrejaSagradoCoracao_CamposEliseos_230820091067Por fim, voltei a refletir sobre o viés espiritual e o social da cerimônia ao fim do curso. Muitos criticam a chamada indústria do casamento. Mas, há quem a valorize. A missa que encerrou o encontro de noivos teve a participação de um coral e orquestra. Estavam lá para divulgar seu trabalho para o grupo de noivos. Liturgicamente, atropelaram a cerimônia: toque de trombeta e marcha nupcial para entrada da missa, ave-maria logo após comunhão… Sem falar nas três músicas ‘demo’ que tocaram e cantaram ao fim da celebração, enquanto uma platéia de noivos cansados desejava apenas pegar seu certificado de participação no curso e seguir para casa.

Tudo bem, muitos deveriam estar ali preocupados também com a pompa e a circunstância da celebração vindoura. São sonhos… Mas cabe a Igreja colocar seus fiéis dentro da realidade e não incentivar, em plena Cracolândia, exibição social em vez de sobriedade e compromisso com um projeto de comunidade de fé libertadora. Meu casamento é em outubro, posso até cometer parte dessa ostentação desnecessária e tentei fugir dela ao máximo, mas tenho plena consciência de que fui alertado e que esse não é o testemunho de fé que o Pai espera de mim.

Igreja do Pateo do Collegio ganha reforma

Igreja do Pateo do Collegio, fachada externa

Igreja do Pateo do Collegio, fachada externa

O artista plástico Cláudio Pastro (veja tese em Ciência da Religião sobre o trabalho dele) me persegue. Entre muitas igrejas no Brasil, interferiu diretamente nas três que eu considero as mais importantes para meu exercício da fé.

Deu formas e novos ares ao Santuário Nacional, transformou o presbitério da Igreja de Nossa Senhora da Glória, em Juiz de Fora, e agora mudou a igreja do Pateo do Collegio. O novo visual, apresentado com em primeira mão pelo G1, foi mostrado à comunidade neste domingo, 26 de julho.

Não tenho nada contra reformas. Gostaria mesmo de uma grande reforma dentro do nosso jeito de celebrar a fé católica. Por isso não tenho o direito de pedir que os templos também fiquem mortos, com suas falhas de projeto que atrapalham a atividade fim. Mas, as obras de Pastro – de inegável valor artístico – nem sempre agradam todos. O mais comum e consenso entre os críticos é que de suas mãos resultam igrejas frias. Eu tive chance de entrevistá-lo sobre a capela que planejou para a visita do Papa em Aparecida e terminei o bate-papo sem uma impressão definitiva sobre o encontro…

Presbitério na Igreja da Glória: pedras e granitos na nova versão

Presbitério na Igreja da Glória: pedras e granitos na nova versão

Mas vejamos… Eu tinha planos de me casar na Igreja da Glória. Entretanto, a mudança lá em Minas Gerais foi polêmica, já que o templo havia sido recém-tombado. Eu particularmente, como não estou lá diariamente, preferia o jeito antigo do presbitério (depois acho fotos das duas etapas e posto aqui. Aqui, link para imagens recentes). Aliás, posso dizer que fui contra mesmo as mudanças… Mas sei que para quem vive o dia-a-dia da comunidade, a repaginada foi importante. Um templo tem que estar à serviço, antes de mais nada. Não adianta apenas ser belo e histórico para simplesmente acabar sozinho e ruir sem uso.

Novo altar, em pedra, e cruz sobre parede de azulejos no Pateo do Collegio

Novo altar, em pedra, e cruz sobre parede de azulejos no Pateo do Collegio

Mas, enfim, desisti de casar em Minas, com ou sem polêmica. Só não fiquei livre das interferências do artista plástico como pano de fundo no meu álbum de casamento. Escolhi realizar meu matrimônio no Pateo do Collegio. Espanto quando descobri que ele mudaria tudo por lá também… Nesse caso, não fui contra e aprovei as mudanças. A Igreja do Pateo (não capela, como disse a repórter do Grupo Estado em reportagem sobre a reforma), era escura e tinha – como tantas outras – falhas litúrgicas, não combinava com a história do lugar. Benedito Lima de Toledo já reclamou, mas possivelmente reconsidere ao avaliar o local depois da reforma. Vale dar uma lida nas reportagens sobre o tema antes de tomar partido…

Vejam o caso do Santuário de Aparecida. Eu era menino e já frequentava o local, sempre rústico com seus tijolos aparentes e quase nenhum ornamento. A interferência de Cláudio Pastro começou e progressivamente fui deixando de me identificar com o local como eu conhecia. Estranhei, mas fui percebendo as intenções, releituras e beleza da arte à serviço da liturgia. Foram várias e várias visitas ao longo de anos para, enfim, na época da visita do Papa, eu novamente sentir o Santuário como minha casa na fé.

Cláudio Pastro me persegue, mas conseguiu – temporariamente nesses dois casos – me convencer. Como dizem que a arte deve ser vivida, vou viver esses espaços e ao longo dos tempos vejo como consolido minha opinião. Mas pessoalmente, torço mesmo para que o talento do artista seja visto em novas igrejas, construídas sob medida para seus conceitos, e menos em reformas nos templos já existentes no país.

“Quando eu faço uma obra de arte, eu nunca penso nas pessoas, em como as pessoas vêem isso, mas eu estou interessado numa fidelidade, numa profundidade e numa espiritualidade séria. Depois é o Cristo que vai falar” Cláudio Pastro em entrevista ao Zenit à época da visita do Papa no Brasil.

“Um outro trabalho bonito, que está sendo extremamente mal usado, é a capela da Rede Vida de Televisão. Eu fiz um terno para o caipira usar… Os padres não sabem usá-la, são cafonas, não sabem o valor dos gestos, do espaço. O próprio diretor da Rede Vida é um caipirão que tem muito dinheiro…” (Veja entrevista completa no Planeta Web aqui)

Segmentação evangélica chega aos games

Quem já tocou Guitar Hero sabe que são muitos os bichos estranhos e chifrudos no cenário do game. Sem falar na letra das músicas, nada cristãs. Por isso, já há no exterior opção livre de heresia para quem deseja ser astro do rock, ainda que seja apena do rock gospel. Um fabricante já anuncia o produto Guitar Praise com set list que inclui White Cross, Skillet e Jonah33.

Mas a lista de “jogos bíblicos” ou jogos evangélicos é bem mais extensa, com possibilidade de jogar online. Um dos sites é o http://www.biblical.com.br/biblical/, que abusa do flash. É possível comandar cordeiros que fogem de lobos, preencher lacunas para formar textos bíblicos ou adivinhar a ordem dos mandamentos.

Teólogo diz que existe uma “religião do mercado”

O teólogo Paul F. Knitter, professor emérito de teologia da Xavier University, em Ohio (EUA), escreve no prólogo do livro “Teologia pluralista libertadora intercontinental” que os dilemas da nossa sociedade global não são oriundos de um “choque de civilizações”, conforme diz Samuel Huntington, mas de um choque entre religiões. Para Knitter, o confronto ocorre entre as chamadas religiões mundiais (judaísmo, cristianismo, islamismo, budismo, hinduísmo, taoísmo e etc) e a “nova religião do mercado”.

Por religião do mercado ele entende a “fé na salvação que o fiel encontra consumindo nos templos do consumo”. Ele confronta características éticas do economicismo com as das religiões tradicionais e aponta nelas as razões para a disparidade da riqueza em nosso mundo globalizado. Em resumo, as religões mundiais têm como pilar ético que o “interesse [do crente] por si mesmo equivale ao interesse pelo outro”. Já na religião do mercado, acredita-se que a busca pelo seu próprio interesse é capaz de promover o bem estar do outro.

O professor diz que a obra, que busca pensar a teologia da libertação e o diálogo inter-religioso, deve servir como discusão sobre a importância da união das religiões frente ao desafio imposto pelas novas formas de organização social. “Os líderes e professores religiosos devem fazer ver claramente que no momento atual, e dada a forma como a religião do mercado entende a si mesma, não é possível para um indivíduo ser ‘membro’ da religião do mercado e, ao mesmo tempo, seguidor de Maomé, Jesus, Buda ou Abraão. Aqui não cabe uma dupla pertença”.

Serviço:Título: Teologia pluralista libertadora intercontinental
Organizadores: José M. Vigil, Luiza E. Tomita e Marcelo Barros
Editora: Paulinas
Preço: R$ 42,50

Veja também: A religião do mercado: Deus e a Mamona, de Anselmo Borges, Padre e professor de filosofia.
Nota: mamona: divindade fenícia protetora das riquezas. Foi este o sentido em que Jesus usou a palavra. Mamona aí, é tudo o que pode ser transformado em dinheiro ou proveito financeiro. Ing. Ricinus. Esp. Rícino. Fr. Ricin. It. Rícino. Al. Wunderbaum m