Arquivo da categoria: Coisas da fé

Hans Küng e a paróquia da Barra Funda

Igreja de Santo Antônio da Barra Funda

Em que medida a carta do teólogo Hans Küng aos bispos (veja a íntegra aqui, vale muito ler) e a realidade pastoral da Paróquia de Santo Antônio da Barra Funda se cruzam? O intelectual exortou os responsáveis pelos dioceses a assumirem o protagonismo diante da crise atual do catolicismo. Em última instância, pede que busquem organizar um novo concílio para debater ecumenismo, celibato e reforma litúrgica.

O apelo aos bispos está embasado em diversos argumentos e algumas constatações. Em um determinado trecho, ele comenta: “Em muitas de suas dioceses vê-se claramente um maior número de igrejas desertas, de seminários e de presbitérios vazios.”

Foi nessa frase que a carta do teólogo e a missa da qual participei no domingo se cruzaram. A Paróquia de Santo Antônio da Barra Funda fica a 10 minutos de caminhada da minha casa. Da minha janela vejo sua cruz de neón iluminada durante as noites e isso me dá um certo conforto. Sou mineiro, estou acostumando a ver as torres das igrejas apontando o caminho do céu. Aliás, essa cruz visível das janelas do apartamento e a proximidade da igreja foram motivo de alegria após a compra da nossa residência.

A igreja é modesta, mas tem um altar bonito, com a imagem de um Cristo Ressuscitado dominando o espaço. É agradável e até inspiradora. Mas, suas quatro fileiras com 15 bancos, somando cerca de 360 lugares não me pareceu muito frequentada nas últimas vezes que estive no local. Ontem, certamente a missa das 18h não tinha mais que 50 pessoas.

Eu mesmo não costumo participar das celebrações nessa igreja. São louváveis os esforços do pároco e condenável meu distanciamento. Mas nunca consegui me sentir em casa nas celebrações (vou omitir aqui minhas críticas, que são tantas que eu acabaria me mostrando mais arrogante do que sou). Apesar de vazia nas missas das quais participei, a igreja tem um bom grupo de jovens atuando como acólitos, coroinhas e integrantes do ministério de música. Tem como característica a influência da religiosidade popular apoiada na devoção ao padroeiro e a vibração carismática do grupo de canto.

Mas, a crise do catolicismo está ali. Não a crise da moral sexual dos padres, mas o distanciamento entre o desejo de uma comunidade numerosa e a realidade da baixa frequência aos cultos. Se colocada em práticas as sugestões reformadoras, elas poderiam aumentar a presença dos católicos? Na minha humilde opinião, uma liturgia reformada, uma doutrina aberta ao diálogo com os dilemas pós-modernos típicos das grandes metrópoles e padres casados com alto nível intelectual fariam muito bem a todos, inclusive à Paróquia de Santo Antônio da Barra Funda.

Pedofilia: nem sempre é oportuno zelar pelo bom nome da Igreja

Casos de abusos sexuais (estupros, segundo a nova concepção da nossa legislação) cometidos por padres jogaram os holofotes sobre as decisões do Papa Bento XVI. Foram (e são) tantos os crimes que é difícil consolidá-los em alguma lista, embora o porta-voz do Vaticano diga que eles tenham diminuído 30% no último ano. Apesar disso, Bento XVI divulgou carta aos irlandeses na qual pede desculpa por atos cometidos em décadas passadas e faz também uma análise da questão (Veja íntegra aqui).

O texto é longo e eu destaco um parágrafo, no qual há quatro pontos com o diagnósticos sobre as causas do problema:

1) procedimentos inadequados para determinar a idoneidade dos candidatos ao sacerdócio e à vida religiosa;
2) insuficiente formação humana, moral, intelectual e espiritual nos seminários e nos noviciados;
3) uma tendência na sociedade a favorecer o clero e outras figuras com autoridade
4) uma preocupação inoportuna pelo bom nome da Igreja e para evitar os escândalos

A mim, o último ponto é tão decisivo quanto os demais. Mas o resumo é mesmo o seguinte: há muito problema nos seminários e a igreja (que não sabe como resolvê-los) às vezes prefere ocultar seus efeitos. O mesmo corporativismo que vemos entre jornalistas, médicos e tantas outras categorias fica ainda mais óbvia nesses casos dentro da Igreja.

O resumo e a lição que vai ficar para o futuro, quando avaliarem com outros olhos a carta do Papa, na minha opinião, é a mensagem de que nem sempre é oportuno zelar pelo bom nome da Igreja. Pedofilia não é algo para ser tratado com oração e até o Papa sabe disso.

Padre Cícero, de Lira Neto

Ganhei o livro de presente da minha esposa: li as mais de 500 páginas em quatro dias. Fiquei encantado com o livro por dois motivos. O primeiro, apesar de ser ex-aluno de Ciência das Religiões, conhecia quase nada da história do padre, que é surpreendente. Outro motivo é que o livro é muito bem feito, um trabalho que vale cada real investido na compra do exemplar. Recomendo, e muito.

Caim, de José Saramago

Loja exibe livro de Saramago em vitrine

Loja exibe livro de Saramago em vitrine

Tive a chance de comprar o livro editado pela Caminho: capa amarela, com um desenho do protagonista na capa. São 181 páginas de boa literatura e poucas surpresas para quem já leu o “Evangelho (…)” ou “Ensaio (…)”, o que não quer dizer que eu não indicaria o livro. De modo algum. Quem gosta da prosa do escritor vai se divertir em umas seis horas de leitura.

Rompendo com as questões temporais na narrativa, Saramago leva o personagem Caim a visitar as principais passagens do antigo testamento. Sim, estamos falando daquele Caim que matou Abel, filho de Adão e Eva, conforme é relatado no Gênesis, primeiro livro da Bíblia. Ele se encontra com Deus e todo mundo: de Deus até Noé, passando por Abraao e Noé.

Cético ou ateu? Não sei como relatar, mas é fato que os líderes religiosos gostaram pouco do livro. Tanto que, até onde é possível dizer isso, Saramago teve que ‘se explicar’ (link para reportagem ‘tuga’ aqui).

De modo geral, o livro toma como literais as histórias relatadas no Antigo Testamento. Vê um Deus que é capaz de praticar o mal, entende de modo estrito as construções feitas pela humanidade na Antiguidade para construção da ideia do divino. A grita se justifica, segundo os líderes religiosos, no fato de que as grandes tradições religiosas têm se esforçado cada vez mais para dar o contexto histórico daquelas construções.

A polêmica segue; tudo porque, em essência, o Deus do Antigo Testamento também continha em si o seu próprio oposto. No fim, como sempre, tudo é culpa do Diabo.

Atualização 18 de junho:
Reportagem que tive chance de escrever no dia da morte de Saramago
G1 – Igreja Católica em Portugal lamenta morte de Saramago, ateu e crítico

Igreja do Pateo do Collegio ganha reforma

Igreja do Pateo do Collegio, fachada externa

Igreja do Pateo do Collegio, fachada externa

O artista plástico Cláudio Pastro (veja tese em Ciência da Religião sobre o trabalho dele) me persegue. Entre muitas igrejas no Brasil, interferiu diretamente nas três que eu considero as mais importantes para meu exercício da fé.

Deu formas e novos ares ao Santuário Nacional, transformou o presbitério da Igreja de Nossa Senhora da Glória, em Juiz de Fora, e agora mudou a igreja do Pateo do Collegio. O novo visual, apresentado com em primeira mão pelo G1, foi mostrado à comunidade neste domingo, 26 de julho.

Não tenho nada contra reformas. Gostaria mesmo de uma grande reforma dentro do nosso jeito de celebrar a fé católica. Por isso não tenho o direito de pedir que os templos também fiquem mortos, com suas falhas de projeto que atrapalham a atividade fim. Mas, as obras de Pastro – de inegável valor artístico – nem sempre agradam todos. O mais comum e consenso entre os críticos é que de suas mãos resultam igrejas frias. Eu tive chance de entrevistá-lo sobre a capela que planejou para a visita do Papa em Aparecida e terminei o bate-papo sem uma impressão definitiva sobre o encontro…

Presbitério na Igreja da Glória: pedras e granitos na nova versão

Presbitério na Igreja da Glória: pedras e granitos na nova versão

Mas vejamos… Eu tinha planos de me casar na Igreja da Glória. Entretanto, a mudança lá em Minas Gerais foi polêmica, já que o templo havia sido recém-tombado. Eu particularmente, como não estou lá diariamente, preferia o jeito antigo do presbitério (depois acho fotos das duas etapas e posto aqui. Aqui, link para imagens recentes). Aliás, posso dizer que fui contra mesmo as mudanças… Mas sei que para quem vive o dia-a-dia da comunidade, a repaginada foi importante. Um templo tem que estar à serviço, antes de mais nada. Não adianta apenas ser belo e histórico para simplesmente acabar sozinho e ruir sem uso.

Novo altar, em pedra, e cruz sobre parede de azulejos no Pateo do Collegio

Novo altar, em pedra, e cruz sobre parede de azulejos no Pateo do Collegio

Mas, enfim, desisti de casar em Minas, com ou sem polêmica. Só não fiquei livre das interferências do artista plástico como pano de fundo no meu álbum de casamento. Escolhi realizar meu matrimônio no Pateo do Collegio. Espanto quando descobri que ele mudaria tudo por lá também… Nesse caso, não fui contra e aprovei as mudanças. A Igreja do Pateo (não capela, como disse a repórter do Grupo Estado em reportagem sobre a reforma), era escura e tinha – como tantas outras – falhas litúrgicas, não combinava com a história do lugar. Benedito Lima de Toledo já reclamou, mas possivelmente reconsidere ao avaliar o local depois da reforma. Vale dar uma lida nas reportagens sobre o tema antes de tomar partido…

Vejam o caso do Santuário de Aparecida. Eu era menino e já frequentava o local, sempre rústico com seus tijolos aparentes e quase nenhum ornamento. A interferência de Cláudio Pastro começou e progressivamente fui deixando de me identificar com o local como eu conhecia. Estranhei, mas fui percebendo as intenções, releituras e beleza da arte à serviço da liturgia. Foram várias e várias visitas ao longo de anos para, enfim, na época da visita do Papa, eu novamente sentir o Santuário como minha casa na fé.

Cláudio Pastro me persegue, mas conseguiu – temporariamente nesses dois casos – me convencer. Como dizem que a arte deve ser vivida, vou viver esses espaços e ao longo dos tempos vejo como consolido minha opinião. Mas pessoalmente, torço mesmo para que o talento do artista seja visto em novas igrejas, construídas sob medida para seus conceitos, e menos em reformas nos templos já existentes no país.

“Quando eu faço uma obra de arte, eu nunca penso nas pessoas, em como as pessoas vêem isso, mas eu estou interessado numa fidelidade, numa profundidade e numa espiritualidade séria. Depois é o Cristo que vai falar” Cláudio Pastro em entrevista ao Zenit à época da visita do Papa no Brasil.

“Um outro trabalho bonito, que está sendo extremamente mal usado, é a capela da Rede Vida de Televisão. Eu fiz um terno para o caipira usar… Os padres não sabem usá-la, são cafonas, não sabem o valor dos gestos, do espaço. O próprio diretor da Rede Vida é um caipirão que tem muito dinheiro…” (Veja entrevista completa no Planeta Web aqui)

vale ler

“A história do Diabo no Brasil”, Alfredo dos Santos Oliva – Fonte editorial

Justiça diz que descontar dízimo do salário é ilegal

O empregador não pode descontar do empregado a contribuição do dízimo. Uma decisão do Tribunal Regional do Trabalho da 2ª Região (TRT-SP), de 2 de setembro, determinou que um empregador de Guarulhos devolvesse o valor descontado com correções.

A condenada é a Instituição Paulista Adventista de Educação e Assistência Social, que terá de devolver R$3.618,2 descontado de Eliana Melo Duarte a título de dízimo no período de janeiro de 2002 a agosto de 2006. Dentro de um acordo entre as partes, a funcionária assinou documento que autorizava o desconto. Mas foi demitida quatro meses pedir que a prática fosse cancelada. A demissão não estava em julgamento, mas sim a incompatibilidade entre questões de fé e CLT.

Lições de Malaquias 3
Fui refletir sobre o tema. Curiosamente, encontrei no site adventistas.com – cujo domínio cita a mesma denominação evangélica em questão na ação – um artigo sobre o dízimo que critica a obrigatoriedade das contribuições e a maneira como elas costumam ser cobradas por pastores.

Hoje, cristãos sinceros deixam de comprar gêneros de primeira necessidade para pagar dízimos às suas igrejas. Põe dez por cento de seus salários num envelope, lançam-no na salva de ofertas e saem aliviados. “Agora Deus vai me abençoar. Já cumpri minha parte”. A superstição é tão forte que alguns chegam a pagar dízimos com cheques pré-datados afim de se livrarem da maldição de Malaquias.

O artigo assinado pelo teólogo Paulo Gomes do Nascimento fala sobre a deturpação do texto de Malaquias 3:8-10:

“Roubará o homem a Deus? Todavia vós me roubais, e dizeis: Em que te roubamos? Nos dízimos e nas ofertas alçadas. Com maldição sois amaldiçoados, por que me roubais, vós a nação toda. Trazei todos os dízimos à casa do tesouro, para que haja mantimento na minha casa e depois fazei prova de mim, diz o Senhor dos Exércitos, se eu não vos abrir as janelas do céu, e não derramar sobre vós uma bênção tal, que dela vos advenha a maior abastança”.

Não é possível fazer qualquer tipo de relação entre as reflexões propostas pelo autor com a sentença do TRT. Ele busca avaliar os pastores pouco comprometidos que usam a superstição para arrecadar fundos. Entretanto, cabe refletir sobre a necessidade da postura ética e coerente com a mensagem bíblica para além dos cultos, principalmente nos ambientes de trabalho. Afinal, medo e pressão não combinam com fé, como diz o autor em outro contexto:

A superstição criada pela doutrina do dízimo não condiz com a mensagem de liberdade do novo concerto. A crença de que seremos amaldiçoados se não dermos dez por cento de nossos salários à igreja é um engodo e tanto. Superstição. Simplesmente superstição. Não importa qual seja o ritual.