Tragédia em Realengo – Nenhuma fé justifica o mal

O brutal assassinato de 13 crianças em escola de Realengo, no Rio de Janeiro, foi irresponsavelmente colocado ao lado de motivos religiosos. Uma carta deixada pelo atirador e uma afirmação feita por um parente deram as bases para os julgamentos precipitados. De fato, o texto deixado pelo jovem traz fragmentos de alguns temas comuns às três “religiões do livro”.

Entretanto, a análise do seu conteúdo revela contradições que desautorizam seu autor a encontrar qualquer apoio na busca de Deus para seus atos. Simplesmente porque não há crença saudável que se oriente pelo mal. Aliás, quem lê a carta atentamente vê que ele não procura diretamente desculpa na fé em nenhum momento. Ele não explica nada. Fez, simplesmente.

Vejamos os principais pontos da carta sob o aspecto religioso: o texto usa sobretudo o conceito de impureza e castidade quando o jovem se refere ao modo como deseja ser sepultado. Dá instruções para que seu corpo seja lavado e envolvido em um lençol branco antes de se colocado em um caixão. Pede ainda para que um “fiel seguidor de Deus” ore por ele. Ele solicita que esse fiel peça o perdão de Deus e rogue para que Jesus em sua vinda o desperte do “sono da morte para a vida eterna”.

Agora, alguns poucos equivalentes entre os trechos destacados em negrito e o equivalente nas religiões. Os conceito de impureza e castidade são explorados de diversas maneiras no discurso religioso, tanto no Antigo quanto no Novo Testamento. Nem é preciso lembrar o quanto o tema da castidade é citado por padres e pastores nos dias atuais, embasados por passagens como Gálatas 5, 19, que cita a impureza como uma das ‘obras da carne”. O Alcorão e a prática islâmica são repletas de citações à pureza, tanto da alma quanto do corpo.

Os detalhes solicitados na preparação do corpo para o enterro lembram as orientações de um funeral judaico, cuja ritual do taharat (purificação) orienta a limpeza do morto e o uso de uma simples mortalha branca. Uma das imagens mais próximas disso e sempre viva em nosso inconsciente religioso é que Jesus foi sepultado envolvido apenas em um lençol branco (Mt 27, 59).

Já a esperança de ser despertado por Jesus do “sono da morte” poderia ser lembrada na passagem da ressurreição de Lázaro, quando Jesus diz em uma metáfora que vai acordar o amigo que adormeceu (João 11, 11). Ainda sobre a frase final do texto, ela está aproximadamente refletida no salmo 13, 3, que usa a expressão “sono da morte”, de acordo com a tradução da Bíblia disponível.

Além disso, ainda encontramos na carta do assassino a citação ao retorno de Jesus (vinda), que normalmente é encontrada em movimentos milenaristas que acreditam que o retorno do Messias está próximo e restabelecerá o reino do Deus na Terra. Parte delas tem base em leitura equivocadas do livro do Apocalipse que já resultaram em extremos de fanatismo religioso.

Com esses pontos em mente, conseguimos perceber claramente que Wellington Menezes de Oliveira não articula no conteúdo do que escreveu um discurso religioso específico. Fragmentado e influenciado por diversos pontos desse imaginário comum aos judeus, cristãos e muçulmanos, o seu autor tece uma colcha de retalhos fora de qualquer religião, principalmente do islamismo, que não toma Jesus como base de sua doutrina.

Ao longo do dia, algumas das apurações preliminares chegaram a apontar que o atirador via impureza nas crianças e que tinha Aids. Leituras apressadas da carta por funcionários incompetentes? Não sabemos. Da mesma forma, a Federação das Associações Muçulmanas do Brasil precisou emitir nota para esclarecer que ele não participava da comunidade, como parentes chegaram anunciar e depois recuaram.

Se há alguma mensagem ou lição para ser tirada sob o prisma religioso dessa brutal tragédia é que a violência se apoiará sempre nos principais eixos da vida socialpara achar suas justificações, mesmo que indiretamente. Diariamente pessoas são assassinadas e dizemos que a razão do crime está no amor, no ódio racial, no futebol, no dinheiro. As razões profundas para o assassinato só as doutrinas que avaliam a psique humana podem ajudar a decifrar. Mas se a violência se banaliza, não é de espantar que ela venha acompanhada de fragmentos do imaginário religioso. Deve sim nos espantar a associação rápida entre qualquer tipo de religião e justificativas para asssassinatos.

Íntegra da carta
“Primeiramente deverão saber que os impuros não poderão me tocar sem luvas, somente os castos ou os que perderam suas castidades após o casamento e não se envolveram em adultério poderão me tocar sem usar luvas, ou seja, nenhum fornicador ou adúltero poderá ter um contato direto comigo, nem nada que seja impuro poderá tocar em meu sangue, nenhum impuro pode ter contato direto com um virgem sem sua permissão, os que cuidarem de meu sepultamento deverão retirar toda a minha vestimenta, me banhar, me secar e me envolver totalmente despido em um lençol branco que está neste prédio, em uma bolsa que deixei na primeira sala do primeiro andar, após me envolverem neste lençol poderão me colocar em meu caixão. Se possível, quero ser sepultado ao lado da sepultura onde minha mãe dorme. Minha mãe se chama Dicéa Menezes de Oliveira e está sepultada no cemitério Murundu. Preciso de visita de um fiel seguidor de Deus em minha sepultura pelo menos uma vez, preciso que ele ore diante de minha sepultura pedindo o perdão de Deus pelo o que eu fiz rogando para que na sua vinda Jesus me desperte do sono da morte para a vida eterna.” “Eu deixei uma casa em Sepetiba da qual nenhum familiar precisa, existem instituições pobres, financiadas por pessoas generosas que cuidam de animais abandonados, eu quero que esse espaço onde eu passei meus últimos meses seja doado a uma dessas instituições, pois os animais são seres muito desprezados e precisam muito mais de proteção e carinho do que os seres humanos que possuem a vantagem de poder se comunicar, trabalhar para se alimentarem, por isso, os que se apropriarem de minha casa, eu peço por favor que tenham bom senso e cumpram o meu pedido, por cumprindo o meu pedido, automaticamente estarão cumprindo a vontade dos pais que desejavam passar esse imóvel para meu nome e todos sabem disso, senão cumprirem meu pedido, automaticamente estarão desrespeitando a vontade dos pais, o que prova que vocês não tem nenhuma consideração pelos nossos pais que já dormem, eu acredito que todos vocês tenham alguma consideração pelos nossos pais, provem isso fazendo o que eu pedi.”

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Uma resposta para “Tragédia em Realengo – Nenhuma fé justifica o mal

  1. Concordo com essa linha de pensamento do texto acima pois as pessoas visam encontrar a justificativa das coisas de maneira mais rápida possível e acaba se equivocando e sendo irresponsável! O pior é que essas idéias se propagam rapidamente pelo mundo e nas Universidades, ontem dia 07/04/2011 ouvi em sala de aula um professor Doutorado em Ética no curso de Filosofia na UFRN dando um exemplo, e em seu argumento citou essa tragédia colocando como principal foco para a mesma a religiosidade. Como uma afirmação desse tipo pode ser dito? E há propagação dessa idéia que pra mim é rasteira e sem um embasamento!
    É preciso estarmos preparados ou iremos ingerir qualquer besteira e sair vomitando as mesmas por aí fora!

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