Hora de ir além do atropelamento de ciclistas

Motorista Ricardo Neis, em arte de Danilo Sales

O funcionário público Ricardo Neis vai enfrentar uma série de complicações judiciais por ter atropelado, intencionalmente, dezenas de ciclistas em Porto Alegre. Para os pedaleiros, mais importante que torcer pela condenação dura do agressor é aproveitar o momento para fazer um balanço da defesa do uso das bikes como meio de transporte. Há vários motivos para aproveitar a mobilização e repensar as pendências do movimento.

Abaixo, deixo algumas das minhas impressões colecionadas como jornalista interessado nos temas relacionados à mobilidade urbana e como ciclista ativo:

1) BICICLETADA: Defendo um novo modelo para essa manifestação, mas reconheço a total legitimidade e fundamental importância do formato atual para a união de interessados na causa. Acredito que ela pode sofrer grandes mudanças para ser mais efetiva. Minha opinião é que ela funciona muito bem dentro do grupo de ciclistas, agregando nomes e pessoas, mas parece não ter a mesma força quando a medida é o convencimento de pedestres, motoristas e autoridades para a importância das bicicletas como meio de transporte.

2) AÇÕES JUDICIAIS E POLÍTICAS: É hora de começar a acionarmos judicialmente prefeituras (sobretudo a de São Paulo) por não cumprir leis específicas que determinam a inclusão das bicicletas nas vias.  Precisamos passar a defender projetos de lei até mesmo na Câmara dos Deputados para que bicicleta no trânsito seja de fato muito mais que construir ciclovias. (Aliás, é preciso mobilizar o voto em vereadores e deputados comprometidos; e quem sabe um dia lançar nossos próprios candidatos.)

3) FORTALECIMENTO DE ASSOCIAÇÕES: Sem estruturas jurídicas aptas a fechar parcerias com empresas e administrações públicas não poderemos avançar na realização de eventos e na profissionalização do cicloativismo. A ideia não é ganhar dinheiro, jamais, mas sim ter como estruturar trabalhos com continuidade e qualidade.

4) INFORMAÇÃO DE QUALIDADE: Chegou a hora de termos material de qualidade impresso ou nos sites das associações sobre os principais temas. É preciso haver manuais que indiquem desde como instalar um bicicletário em sua empresa até como cobrar a implementação correta de uma ciclofaixa.

5) EVENTOS CRIATIVOS: A mídia é carente. Novos tipos de eventos e mobilizações sempre despertarão o interesse de jornais, sites e televisões. A “Pedalada Pelada”, embora questionável, sempre despertou interesse para a causa.

Pelo pouco que já consegui acompanhar, sei que todos esses temas acima já são trabalhados em associações como a Ciclocidade. (Espero ainda ajudar, vou ter chance e confesso que não me faltaram convites.) O certo é que o momento é propício e exige amadurecimento de quem quer de fato defender as bicicletas como meio de transporte e qualidade de vida. A comoção do vídeo e a repercussão do atropelamento vai acabar muito breve, mas dezenas de ciclistas continuarão a ser agredidos sem a testemunha de uma câmera nas ruas brasileiras.

Saiba mais sobre o atropelamento:
NYT – Driver Accused of Injuring Brazil Cyclists http://nyti.ms/fC9iwF

Anúncios

Uma resposta para “Hora de ir além do atropelamento de ciclistas

  1. Pingback: Sobre Bicicletadas, rebeldia e causas « Outras Vias

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s