Um Jogador – Dostoiévski

Bom motivo para ler “Um Jogador”, de Dostoiévski: uma cena muito curiosa na qual o escritor promove uma reviravolta na vida dos personagens que estão reunidos em um hotel na Alemanha.

Óbvio, não vou adiantar mais nada, pode perder a graça se você resolver ler a obra. Mas, adianto que “Um Jogador” não é  um livro para rir. Se fiquei com essa cena na cabeça e realmente dei risadas, o mesmo não aconteceu nas outras 215 páginas.

Vamos a uma sinopse: um jovem russo conta as memórias de um período de aproximadamente dois anos de sua vida. O jogo e o amor definem os lances da sua existência neste período, mostrando ainda como o cenário das relações sociais podem ser tecidos em torno do dinheiro. Traços do romance de costumes… Como sempre, há bem mais que roletas e sonhos.

Outro ponto a ser considerado para entender: o livro foi escrito por Dostoiévski entre 4 e 29 de outubro de 1866 para cumprir uma exigência de contrato com seu editor. Na época, estava dedicado a “Crime e Castigo”, mas tinha que entregar algo novo para ser publicado ou perderia direitos sobre suas obras por 9 anos. Para dar conta da tarefa, chegou a ditar o livro para uma taquígrafa, que depois veio a ser sua segunda esposa.

De alguma forma o tempo de maturação do romance pode ter influenciado nos pontos da narrativa que, a mim, incomodaram. (Ou eu deveria ver maior genialidade em uma obra produzida nessas condições, ditada ao ritmo dos relógios?). Apesar das considerações, não usaria jamais classificar “Um Jogador” como obra menor.

Na verdade, talvez eu precise de mais tempo para entender o protagonista, Aleksiéi Ivânovitch. Vi nele uma fragilidade psicológica um tanto absurda, um extremo da derrota confiante e determinada.  Também fiquei a refletir a construção de Polina, objeto do amor do nosso ‘jogador’. Dura, frágil, doentia… Talvez esse seja um dos encantos do relato, as frestas e os traços incompletos em alguns dos habitantes da estória.

Suspeito ainda que o romance teria um acabamento mais fino em alguns pontos. Em algumas páginas, quando o tom de diário marcou o relato, fiquei com a impressão de que ele ganhava tempo para afinar um desfecho ou engordar o livro. Posso estar sendo injusto. Preciso reler outros livros dele para traçar paralelos.

(Aliás, comprei a tradução direta do russo de “Crime e Castigo”. Está na fila para releitura. Quero de presente os dois volumes da mesma editora de “Irmãos Karamazóv”, também para reler. Minha memória anda fraca, preciso reavivar a lembrança dos essenciais de Dostoiévski.)

E para quem ficou interessado em “Um Jogador”, recomendo e quero saber também outras opiniões. Na edição da editora 34, há um bom posfácio (leia aqui) do tradutor, Boris Schnaiderman, e boas ilustrações em xilogravura de Axl Leskoschek.

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