A vítima ou o congestionamento, qual é a notícia?

A vítima ou o congestionamento provocado por um acidente, qual é o foco da notícia? Os grandes veículos de comunicação, sobretudo os sites e rádios, costumam optar pelo congestionamento, sobretudo nos casos mais corriqueiros. Calma, apesar disso, é preciso dizer que os jornalistas têm sim coração.

Antes de mais nada, é bom lembrar que falamos de veículos comerciais, orientados pela busca de audiência como fator de viabilidade econômica. Com base nisso eles traçam suas linhas editoriais. Elas pregam que a missão principal é atender o maior número de ouvintes, leitores e afins. Por isso, no caso dos acidentes de trânsito, miram aqueles que dirigem ou terão que planejar seu caminho via transporte público. A ideia é que todos evitem rotas prejudicadas por um acidente.

Ainda na faculdade, os jornalistas aprendem que é preciso ter “critérios para a seleção de notícias”. Os mais comuns são: proximidade, atualidade, ineditismo, conflito, utilidade pública, relevância e importância. Não vou me deter em analisar detalhadamente cada item, é possível fazer associações lógicas e entender como os editores de notícias raciocinam a partir destes conceitos.

Mas, quero ressaltar um item. Em 2009, foram 1.382 mortes no trânsito em São Paulo. (Os números atuais não são claros, foi em 2007 o último ano em que vi o detalhamento das estatísticas, com vias mais perigosas e etc.)  Além desse total de 3,7 mortes/dia, temos  dezenas de feridos. Se não bastasse esse número absurdo de vítimas, ainda há a dificuldade em saber mais sobre elas, muitas vezes por questão de privacidade. Quem lê ou ouve as informações sobre um acidente muitas vezes não imagina como hospitais se negam a passar dados.

Muitas vezes, eu já vi isso na redação centenas de vezes, temos a intenção de saber mais sobre o acidentado e seu estado de saúde, mas essas informações não são acessíveis nos hospitais. É impossível para o jornal manter repórteres na porta dos centros médicos aguardando a chegada das famílias das vítimas para atualizar esses dados.

A mim, considerando essa lógica, não soa estranho quando a notícia do acidente dá informações básicas sobre, por exemplo, um motoqueiro que caiu abalroado por carro na Avenida Rebouças. Vejamos dois títulos possíveis: “Motoqueiro é socorrido com ferimento na perna após acidente na Avenida Rebouças” ou “Ônibus e carros estão parados na Avenida Rebouças para resgate de motoqueiro“.

O último título, com certeza, diz respeito ao cotidiano de mais gente. Uma notícia com esse espírito atende a lógica do rádio ou dos portais que precisam dar informações “quentes” e que tenham proximidade com a vida de seu público e suas preocupações imediatas. Os editores avaliam que raríssimos estão preocupados com um possível motoqueiro, mas muitos com estudo, trabalho e compromissos que podem perder no trânsito. Parte considerável desse público dirige os quase 7 milhões de carros licenciados na cidade.

Por esses e outros raciocínios, dos quais não vejo motivo para orgulho ou lamentação, penso que o problema é outro. Na minha opinião, faltam nos grandes veículos reportagens (ou repórteres) que encontrem na ausência de estatísticas ou nos poucos dados disponíveis alguma interpretação que nos ajude a entender essa carnificina no trânsito. Além disso, reportagens que possam progressivamente convencer que é preciso inverter a lógica da preocupação com a mobilidade em detrimento da vida.

Por isso, não espero que jornalistas se dediquem a saber pontualmente como está cada um dos feridos no trânsito de São Paulo. Seria impossível dentro da atual lógica das empresas e os sites, jornais e afins ficariam até enfadonhos. Mas eu gostaria muito que eles encontrassem padrões de comportamento, índices de risco e agentes portadores da culpa por essas mortes e ferimentos. Troco a informação pura e simples da gravidade dos machucados ou a hora exata da morte pela notícia completa do quão perigoso pode ser tentar atravessar uma determinada avenida cujo farol está desregulado ou sem faixa de pedestres.

Aos coletivos e associações que pregam com todo mérito a paz no trânsito e cobram a mudança urgente no foco da mídia mesmo nos casos mais corriqueiros, está aberta uma janela de oportunidade. Os sites e blogs que esses grupos proliferam na rede podem fazer um jornalismo que inverta essas opções cotidianas? Dá para fazer notícia de qualidade, com sustentabilidade econômica, e conquistar leitores contando cada pequeno movimento dessa guerra do trânsito? Ou só resta aos ativistas ficar fazendo barulho nas redes sociais? O desafio está nas ruas e os cicloativistas têm fama de não esperar que alguém faça aquilo que podem fazer eles mesmos.

(PS: 1 – Acho o http://www.pebodycount.com.br um exemplo de como marcar espaço. É “mídia alternativa” que ganhou alguma voz denunciando algo que os grandes veículos não acompanhavam.

PS: 2 – O blog que conta a recuperação do Tomás após seu acidente de bicicleta é um bom exemplo de como usar a “mídia alternativa” para sensibilizar sobre quem paga o preço dos acidentes http://www.reinach.com.br/2010/05/tudo-comecou.html)

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