75 anos, cinco bicicletas e muitos sonhos em um quarto minúsculo

Encontrei o senhor Nestor e sua Caloi 12 azul na região da Vila Mariana, em um domingo de sol e asfalto muito quente. Perguntei se ele estava começando ou terminando seu treino. Ele disse que tinha acabado de sair de casa e iria girar pelas ruas da Zona Sul de São Paulo por cerca de uma hora. Decidi acompanhar. Redescobri naquele desconhecido de 1,52 metro, 50 quilos e 75 anos a lição de que a vida é dura para todos, inclusive para quem pedala.

Nestor Vitor tem uma pequena coleção de troféus no quarto minúsculo onde vive, de aluguel. Além disso, guarda cinco bicicletas, diversos equipamentos antigos e outros nem tanto. Há espaço ainda para garrafas de água, frutas e alguns passarinhos engaiolados. Gosta de ‘coleirinhos’. Vive com a renda do trabalho no táxi, um Polo 2007, e das memórias dos seus feitos sobre duas rodas.

A maioria das lembranças ainda está muito viva ou até mesmo fazem parte da rotina ciclística: ele não leva água para os pedais (‘gosto de sentir a bicicleta leve’). Quase me obrigou a comer um dos dois torrões de açúcar que levava enrolado na bermuda (‘é colocar na boca e a energia vem na hora’), mas o maior aperto mesmo foi acompanhar suas manobras furando sinal vermelho. Ele disse que faz 76 anos neste mês e eu aconselhei cuidado, mas não é muito o estilo dele (‘não ando em ciclofaixa’). Proteção também não é seu forte: o capacete é daqueles antigos, que pouco ou nada deve absorver em uma queda.

Ele está separado há 20 anos da mulher, com quem teve duas filhas. Jura que o ciclismo não foi o culpado pela separação, mas demonstra mágoa por ter sido deixado. Apesar desse capítulo conturbado, diz que nunca se divorciou completamente das bicicletas, embora tenha parado de pedalar durante uns bons anos. Os troféus não deixam mentir seu currículo: já venceu a 9 de Julho dentro do autódromo de Interlagos, colecionou várias vitórias de etapas em provas pelo interior e tem mesmo muita memória da época de ouro do ciclismo paulista.

Neste domingo, ao encontrar por acaso um parceiro de pedal, pareceu ganhar novo fôlego. Subiu forte uma parede na Pedro Bueno. Chegou esbaforido ao fim do pedal, confesso que até fiquei meio preocupado.Entretanto, mesmo para quem nunca o viu antes, sua postura parecia demonstrar mais esperança do que o habitual. Sua história de atleta esquecido pelo esporte e marido abandonado pela mulher não pesavam tanto em suas pernas magras. Ele é uma figura que parece ter saído de um filme, ele é um documentário ou irmão do Adoniran.

Terminado o pedal, Nestor fez questão de apresentar seu ‘beco’ e seu maior orgulho: uma Vittus vermelha, quadro 51, cheia de boas peças Campagnolo (‘nem sei quantos anos tem o câmbio e não tem uma folguinha’). Difícil foi ir embora. Senti como se ele há anos não tivesse a chance de contar seus giros e desventuras. Quer fazer novo pedal e garante que, com mais três ou quatro treinos, já estamos prontos para pegar uma estrada (‘vamos até o pedágio na Bandeirantes’).

Deixei a Vila Mariana com um nó na garganta. Bem grande. Quanto ao solitário Nestor, parecia feliz como todo ciclista ao fim de um treino e animado com a perspectiva de ter que dirigir toda a tarde e noite de domingo (‘a dona quer o quarto, preciso achar novo lugar para minhas tralhas’).

A vida é dura para todos e os ciclistas não sofrem menos. Nestor me parecia saber bem isso.

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7 Respostas para “75 anos, cinco bicicletas e muitos sonhos em um quarto minúsculo

  1. MARLON OLIVEIRA DE CARVALHO

    Moreira,

    Eu, que sou amante das clássicas tradicionais, fiquei com o mesmo sentimento de admiração que você, pelo protagonista e os elementos reais que comprovam todo o relato.

    Parabéns pela matéria.

    Forte abraço,

    Marlon

  2. Pois é… sem palavras…

    só temos que agradecer a Deus por ELE nos dar uma sacudida, vez ou outra…
    essas sacudidas é que nos deixam mais fortes…

    Um forte abraço

    Berê

  3. Daniel Santini

    Muito bom, velho!

  4. Amei essa materia!
    Tudo que é feito com coraçao é premiado com AMOR!
    Quero pedalar com o Nestor….e com vc tbm…p além do pedágio………quem sabe com mais alguns bons AMIGOS…….o Lucas…….vamos chama-lo ele está precisando voltar a pedalarCAZ!
    Isa

  5. Cá estou eu voltando de um filme carnavalesco no Sesc São José dos Campos, com Hugo Carvana, Chico, Nara e Bethânia.

    Bem, uma amiga ciclista acabara de me mandar o link desta postagem durante um chá de maracujá.

    Eu, um mês solitário, já nem tanto interiormente agora, busco preencher o coração de ciclista um tanto vazio após a despedida da primeira namorada ciclista.

    Meu apartamento também cheio de “tralhas” ferramentas, óleos e ainda o primeiro elo de corrente da minha Monareta Mirim de 1978.

    Nós ciclistas talvez algumas vezes dizemos não para essas magrelas mas elas jamais farão o contrário.

    Algumas magrelas vão, essas ficam. Percorrem conosco retas e curvas…sopram o vento em nosso rosto, canela e braços, finos na maioria das vezes…

    Parabéns pela postagem.

  6. marcelo almeida

    E ai!!!!!!!!!!

    Taxi???

    Saudades queridão!!!

    Bela matéria, bons tempos……

    Marcelo Almeida & Caveirão

  7. Parabéns!! Belo texto, me lembrou uma pessoa que conheci durante um pedal… não tinha a mesma idade, mas uma história parecida.

    Abraço

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