dedo de prosa

Salto alto31 de maio de 2003

Elisângela vivia armada contra a vida. Do alto dos seus 27 anos, acreditava em pouca coisa além do pó. Cheirava todo dia que conseguia encontrar trabalho ou quando apelava para alguém disposto a comprar meia hora de uso do seu corpo. Não que ela fosse feia, tinha mais curvas e mais fogo que muitas putinhas da Rua Augusta. Mas só alugava seu sexo para alguns rapazes já conhecidos. Tinha medo de apanhar, de virar prostituta.

Naquela noite quente de sábado, fevereiro em São Paulo, não tinha cheirado. Rodou as ruas do Tremembé. Salto alto estalando contra o calçamento de pedra, roupa apertada destacando o contorno da bunda e uma fissura por qualquer ar que lembrasse o pó. Morava sozinha, os pais ficaram em outra cidade. Mas dizia manter a dignidade: não vendia o que tinha em seu quartinho alugado, nem se entregava para qualquer um. Delicada, tinha uma habilidade incomum com as mãos e sempre pagava o aluguel com bicos de pedicure.

Até pensou umas duas vezes em trocar a televisão e outros trecos por umas gramas e entrar para o movimento. Desistiu. Tinha medo de ser presa e transformar-se em personagem dos programas de jornalismo que ela sempre assiste no fim de tarde. Preferia batalhar freguesas ou correr atrás do círculo restrito dos seus clientes. Às quatro da tarde, encontrou três.

Eles bebiam em um bar, três quadras abaixo da casa dela. Três amigos, uns meio-malandros com quem ela dava e se dava bem. Tirou um da roda, falou duas palavras sussurradas ao ouvido, mão na nuca fazendo empinar os seios. Eles só voltaram uma hora depois. Ela já tinha comprado o pó, estava plena. Os olhos vidrados giravam em busca de não sabia ela o quê. O bar fechou cedo, era consenso que a rua ficava sem lei e os homens sem escrúpulos depois de chegada a noite.

A esta altura duas outras já haviam chegado. Menos putas que ela, só queriam alguém que pagasse a cerveja e talvez dividissem o pó. Antes de chegarem a outro bar, numa vila próxima, pararam em uma viela para descansar da caminhada, cheirar um papel que o “cliente” de Elisângela tinha no bolso. Para descansar, encostou-se, tirou as sapatos e ficou com eles na mão. Entre o abrir da fivela e a pancadaria não passaram dez segundos.

Dois homens passaram entre o grupo. Alguém pediu um cigarro, um dos que passavam negou. Elisângela só se lembra mesmo do tom de desprezo com que foi dita a frase: “não dou cigarro pra nóia”. Ela não era viciada, como a palavra sugeria, também não era puta e também não era violenta. Nunca tinha furado os olhos de ninguém até aquele dia.

Gostava sim de falar alto, de dar uns tapas em mulheres folgadas que se atreviam com seus namorados. O destino dos dois homens foi bastante diferente. Um fugia enquanto o outro já havia apanhado o suficiente para quase morrer com hemorragia interna. Ela não sabe quantos minutos, quantos socos, quantos pontapés o cara recebeu.

Só no outro dia, quando a polícia arrombou seu quartinho, lembrou-se claramente de ter batido a ponta do seu salto para furar os dois olhos daquele folgado que não tinha morrido e ainda agonizava no chão.

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