Continuamos a noticiar suicídios – 2

Minha opinião a respeito das notícias sobre suicídio não ficou clara para os leitores no post anterior. Voltemos ao assunto.

Manuais de redação, aulas na faculade e as exigências éticas do exercício do jornalismo riscam das pautas as notícias sobre suicídio. Assim deve ser, sem questionamentos. Entretanto, coloquei no rápido post anterior a necessidade de refletir sobre o assunto. Noticiamos a morte na contramão na Castello: quase todos os veículos usaram e abusaram das imagens divulgadas pela concessionária da rodovia. Em outro caso, houve quem fizesse diagramação especial em site e jornal com as imagens do momento em que um suspeito de assalto dá um tiro na própria barriga (especialmente o Estadão e JT capricharam). Nesta semana, equipes de TV não mediram palavras e afirmaram que um usuário pulou na frente do trem na Estação Bresser, sem lembrar ainda da menina que pulou do shopping e foi matéria em vários jornais.

Ouvir os bombeiros, assessoria do Metrô e publicar uma nota é coisa simples. O esforço de reportagem ao qual me referi (e durante todo o texto tentei ser irônico) precisa ir na direção contrária a do fato puro. Se há – como parece – um momento de maior fragilidade no ambiente social que leva ao suicídio, precisamos retratá-lo. Há grupos de apoio para pessoas que um dia já atentaram contra a própria vida e se salvaram? Seria mais interessante uma matéria sobre pessoas que chegaram a pensar no absurdo e depois desistiram? Como anda o trabalho do Centro de Valorização da Vida? Aumentou a demanda por lá?

Enfim, quando um ato individual pára uma cidade, devemos achar meios de reportar. É impossível, principalmente para sites, rádios e TVs, não falar que a linha mais importante do Metrô de SP ficou parado às 18h, mas é preciso habilidade para simplesmente não afirmar que o problema foi causado por uma pessoa que se jogou nos trilhos. Vale pensar o tema. A Época fez uma bela matéria sobre o tema suicídio e postei aqui. O caminho é aquele, mas a mídia ainda poderia aproveitar as repetidas situações para refletir sobre o tema, não apenas noticiar. Repito a consideração final do primeiro post: venhamos e convenhamos, alguns fatos não merecem registros.

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