(atualizado, com comentários do fotógrafo no pé do texto)

No sábado, visitei o Centro Cultural da Caixa Econômica Federal. Fui surpreendido pela história de um ’santo popular’ que acabou dando origem a um cemitério no Ceará. Ele virou tema de ensaio fotográfico. Sou dos montes das minas gerais, desconheço o ritmo da vida e da morte nas areias do Ceará, mas fiquei surpreendido pela história por trás das imagens.
A exposição, em si, não é tão interessante. Som de mar ao fundo e apenas um terço das 25 fotos tem realmente algum apelo original. Não quero ser considerado arrogante ao falar assim dos três anos de trabalho que o fofógrafo empregou, mas tenho minhas críticas ao trabalho. Há boas imagens, mas sobretudo a história agradou. Deixo abaixo:
A exposição, por Gilmar de Carvalho:
PEDRAS COMPRIDAS, UM CEMITÉRIO MARINHO
Durante a Segunda Grande Guerra, no início dos anos de 1940, um corpo, dentro de um surrão de juta, foi jogado de um navio que navegava pelo litoral cearense. O corpo do “homem do saco”, anônimo, sem passado e sem nacionalidade definida, encalhou nas Pedras Compridas, praia de Icaraí, hoje município de Amontada, a duzentos quilômetros de Fortaleza. Um grupo de pescadores cumpriu o preceito bíblico e o enterrou nas dunas.
O morto passou a ser chamado de o “homem do saco” até aparecer em sonhos a um habitante da vila e dizer que seu nome era Serafim. A partir daí, ele ganhou promessas e teria feito com que a comunidade alcançasse graças. Logo o cemitério recebeu ex-votos em madeira, garrafas com água, velas, fitas, e fiéis plantaram flores resistentes aos ventos e à maresia. Parte da comunidade adotou Pedras Compridas e muitos mortos descansam em paz sob as dunas.
Descobrir o cemitério foi um exercício de desvelar a realidade, até então reservada aos poucos que tinham acesso àquele sítio. Pedras Compridas provoca estranhamento. É de uma outra beleza que se fala: um belo que se insinua sublime, por entre teias de aranhas, sol fracionado, areias escaldantes ou sob uma lua plácida e cúmplice, conivente com o que acontece no mundo. Alguns nomes estão ilegíveis nas tumbas, corroídos pela ação do tempo. Muitas cruzes estão quebradas. O abandono acentua a beleza epifânica do lugar. A natureza dilui o impacto da morte, os túmulos se escondem na areia e as cruzes parecem fantasmagóricas. Não se sabe bem se o cemitério existe ou se é uma “visagem”, como poderia dizer “seu” Lourival, que nos acompanhou, pela primeira vez, àquele lugar sagrado e mágico.
O vento sopra intermitente sobre as dunas. O mar é, ao mesmo tempo, barcarola e ameaça. O sol equatorial deixa tudo impreciso. O disparo da câmera de Francisco Sousa quebra o silêncio e nos leva a ser testemunhas desse mundo de imagens.
SERVIÇO:
A exposição “Cemitério Marinho – Fotografias de Francisco Sousa” ficará em cartaz de 23 de agosto a 28 de setembro na CAIXA Cultural (Praça da Sé, 111). O horário de visitação é de terça a domingo, das 9h às 21h. A entrada é franca. Mais informações podem ser obtidas pelo telefone (11) 3321-4400 ou no site WWW.caixa.gov.br/caixacultural.
NOTA DO BLOGUEIRO: Abaixo, vou deixar ainda no corpo do texto o comentário que o fotógrafo responsável pela exposição deixou nos comentários deste blog. Como todo apaixonado pelo que faz, ele fez questão de defender sua obra. Foi válido, ele fez isso muito bem. A intenção é dar para todos a possibilidade de saber mais sobre a exposição que vale ser visitada. Eis os comentários do fotógrafo:
Estou agradecido pelo tom da crítica, pois o teor do ouro só pode ser provado sob o fogo. Considerando as noções subjetivas deste fotógrafo e dos expectadores que poderão contemplar as 25 fotos expostas, como foi o seu caso, esclareço que minha intenção não era demonstrar nada de sobrenatural. De certa forma, me detive em mostrar a vida pulsante e a poeticidade frente à morbidez de um cemitério. Devo mantê-lo informado que foram três anos de visitas e confesso que cheguei a atingir meus objetivos, posto que, em outras tomadas, no decorrer desse período, fiz fotos de um outro cemitério marinho, nada poético, mas tenebroso para ser mais exato. Em todo caso, só em ter caminhado por duas horas até chegar ao cemitério e ter repetido esse ato por muitas vezes, a começar por volta das 3 da manhã, na orla, em meio às dunas, às vezes com o brilho do luar, outras vezes, com escuro total, pisando cascalho de ostras, arrecifes, estrelas do mar e peixes com espinhas pontiagudas no dorso, literalmente, dei meu sangue. E não hesitei em permanecer até as 20 horas, em busca de flagrar o sobrenatural, mas nem assim alcancei. Desculpe-me, então. Fica para uma outra exposição. De certo modo, se consegui ser expressivo em um terço das fotos, digamos que obtive uma performance razoável. Quem sabe, da próxima vez, consiga fazer a metade das fotos com qualidade, até um dia obter sua aprovação de crítico exigente.
Cordialmente,
Francisco Sousa