Papel Eletrônico

A essência do encontro de noivos

Agosto 25, 2009 · 1 Comentário

IgrejaSagradoCoracao_CamposEliseos_230820091066No último fim de semana, participei de um encontro de noivos no Santuário do Sagrado Coração de Jesus, nos Campos Elíseos, região Central de São Paulo. Uma dezena de casais dedicados se esmerou para, voluntariamente, preparar quase 80 jovens para o matrimônio. Todos muito simpáticos e para os quais, individualmente, só tenho elogios. Mas…

…não posso deixar de fazer uma análise crítica da forma como nossa Igreja Católica desenvolve esta pastoral. O encontro começou às 8h e terminou quase 20h do domingo. Como eu mesmo disse para o padre salesiano responsável pelo santuário: “angu de um dia não engorda cachorro magro”. Por mais interessantes que fossem as atividades, ao menos para mim, todo esse tempo de palestra e atividades receptivas se tornaram cansativas. Bem, os organizadores dizem que antes (como em outras paróquias ainda é) o encontro durava dois dias inteiros.

De forma geral, o conteúdo das palestras está a cargo da experiência de cada um dos casais organizadores. Isso até é bom porque assim assuntos como sexo, contraceptivos e planejamento familiar são tratados sem a influência das teorias limitadoras da hierarquia católica. Mas, como efeito colateral, a ausência de interferência dos padres acaba cobrando um preço: às vezes, o conteúdo carece de um olhar mais teológico ou pastoral.

IgrejaSagradoCoracao_CamposEliseos_230820091069Impossível falar de métodos contraceptivos sem dar a explicação correta sobre como e porque a igreja só aceita a tabelinha como forma de evitar filhos. Também difícil falar de planejamento econômico sem lembrar do dízimo ou da importância de ter em mente que produzimos riquezas para nós e para a comunidade.

Repito, cada um dos palestrantes passou ótimas informações. Mas se esses leigos católicos dedicados poderiam ir ainda mais longe com o apoio direto e dedicado da nossa Igreja. Basta ver que o próprio pároco disse: ele está pensando em produzir uma espécie de novena ou outra forma de formação dos noivos, algo que trouxesse para dentro da realidade do jovem casal uma dimensão espiritual do casamento. Preparação de longo prazo, elementos de prece e reflexão nos tumultuados meses que antecedem a cerimônia. Isso seria bom.

Mas, atenção. Longe de mim cobrar foco exclusivo na vida místico-religiosa do casal, pois o casamento é muito concreto e antes dele cabem muitos conselhos práticos e alguns deles foram dados nas palestras. Mas há que se pensar em como oferecer uma chance de fazer desse sacramento como a grande chance de transformar o amor entre homem e mulher em sinal visível do amor de Deus pela sociedade e pela Igreja. Quais as leituras bíblicas, quais os santos e pensadores que de alguma forma dão pistas para a vida a dois? Não há nenhum? Como aproveitar o curso obrigatório para mostrar aos casais que a vida de fé é essencial ao casamento? Eu começaria valorizando o testemunho de cada um dos casais leigos, gente que teve que se superar e segurar firme na religiosidade para superar brigas e desencontros.

IgrejaSagradoCoracao_CamposEliseos_230820091067Por fim, voltei a refletir sobre o viés espiritual e o social da cerimônia ao fim do curso. Muitos criticam a chamada indústria do casamento. Mas, há quem a valorize. A missa que encerrou o encontro de noivos teve a participação de um coral e orquestra. Estavam lá para divulgar seu trabalho para o grupo de noivos. Liturgicamente, atropelaram a cerimônia: toque de trombeta e marcha nupcial para entrada da missa, ave-maria logo após comunhão… Sem falar nas três músicas ‘demo’ que tocaram e cantaram ao fim da celebração, enquanto uma platéia de noivos cansados desejava apenas pegar seu certificado de participação no curso e seguir para casa.

Tudo bem, muitos deveriam estar ali preocupados também com a pompa e a circunstância da celebração vindoura. São sonhos… Mas cabe a Igreja colocar seus fiéis dentro da realidade e não incentivar, em plena Cracolândia, exibição social em vez de sobriedade e compromisso com um projeto de comunidade de fé libertadora. Meu casamento é em outubro, posso até cometer parte dessa ostentação desnecessária e tentei fugir dela ao máximo, mas tenho plena consciência de que fui alertado e que esse não é o testemunho de fé que o Pai espera de mim.

Categorias: Igreja Católica · Sociedade · religião

1 resposta Até agora ↓

  • epdias // Agosto 26, 2009 às 12:01 am | Responder

    Este tema da uma reflexão profunda, que sem dúvidas escreveríamos vários livros e não esgotaríamos o asunto.
    A igreja e santa e pecadora, divina e humana, porém, nós catolicos, demos tendência a caminhar no lado humana da igreja.
    Já participei de preparação para encontros de noivos, e sei o quanto é difícil passar para os casais certos conceitos de nossa religião.
    A biblia é o nosso ponto de referência, para buscarmos a nossa divindade, cabe a igreja com seus teólogos mostrar o caminho para ser um verdadeiro cristão. Enquanto isto não acontece,vamos dando a César o que e de César.

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